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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Importações da China destroçam a economia palestina


Publicado em El País, 03/08/2008


Importações da China destroçam a economia palestina

Ana Carbajosa
Em Jerusalém

Há 41 anos, Abdelaziz El Karaki tece os típicos lenços palestinos ("kufias") em uma fábrica decadente em Hebron, a única em toda Gaza e Cisjordânia. El Karaki viu o negócio evoluir ao ritmo dos acontecimentos políticos. Na primeira Intifada, nos anos 1980, cobrir o rosto com o lenço palestino se transformou em símbolo de resistência e as vendas dispararam, enquanto nos períodos mais tranqüilos as receitas diminuíram. Mas nenhum acontecimento político atingiu tanto a fábrica de Karaki quanto a chegada aos territórios de lenços "made in China", a preços com os quais não consegue concorrer. "Antes esta fábrica dava de comer a 50 pessoas, agora trabalho sozinho e apenas algumas horas. Se continuar assim, logo terei de fechar", lamenta Karaki, tendo como pano de fundo o matraquear de quatro das 15 vetustas máquinas da indústria.

Desmoralizado, Yasir Hamad Hirbawi, o dono da fábrica, confirma a tese de seu empregado enquanto fuma com parcimônia no armazém onde guarda milhares de kufias, na esperança de um dia poder vendê-las. "Nas décadas em que trabalhei como empresário, nunca vi uma mudança tão grande", afirma. "Estamos resistindo, queremos sobreviver e produzir na Palestina, mas..."

Os lamentos de Hirbawi se repetem em todo o território palestino, principalmente em Hebron, seu parque industrial. A chegada das importações chinesas deu o pontapé em uma economia debilitada em boa parte pelas restrições à liberdade de movimentos de trabalhadores e mercadorias impostas por Israel e sua rede de postos de controle, como indicou o Banco Mundial em seu último relatório.

Foram-se os tempos dos famosos sapatos, vidros e têxteis de Hebron. A etiqueta "made in China" entrou nos territórios como um rolo compressor, causando o fechamento de fábricas e a demissão de milhares de trabalhadores. Os números coletados pela Câmara de Comércio de Hebron indicam que, das 120 fábricas têxteis que havia antes de 2000, hoje ficam somente dez e que dos 10 mil trabalhadores empregados pelo setor de calçados só 2.500 conseguiram manter o emprego. O restante passou a engordar a cifra do desemprego, que beira os 32%, segundo dados oficiais.

É verdade que o caso palestino não é um fenômeno isolado, que a locomotiva chinesa não conhece fronteiras, mas os palestinos empobrecidos - com receitas que beiram os US$ 1 mil anuais per capita - são especialmente propensos a consumir produtos baratos, seja quem for o fabricante. "A ocupação destruiu a economia das famílias, que agora começam a comprar produtos chineses baratos", explica Jales Osaily, prefeito de Hebron, para quem sobreviver aos vaivéns da globalização é tão preocupante quanto resistir à ocupação israelense.

Osaily, membro da chamada Terceira Via palestina, o partido minoritário criado em torno do primeiro-ministro Salam Fayyad, acredita que a única solução é se concentrar no desenvolvimento tecnológico e no setor de serviços. Como explicou ao ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, enviado especial da comunidade internacional ao Oriente Médio, sua idéia é montar zonas francas em Hebron que atraiam os investidores estrangeiros e que sejam capazes de concorrer com a produção chinesa, graças aos acordos de isenção fiscal que a Autoridade Palestina mantém com os EUA e a União européia. "Mas tudo isso só será possível se melhorar a liberdade de movimento dos palestinos", afirma em seu elegante escritório na prefeitura.

Na sede da Câmara de Comércio de Hebron, seu diretor Maher Haimuni conta que, apesar do desembarque de importações chinesas "ter destruído nossa economia", alguns poucos, mais ousados, souberam tirar partido da nova realidade e embarcaram no trem das importações. São centenas de hebronitas que viajam regularmente à província chinesa de Guangdong para fazer negócios e comprar mercadorias.

Haimuni conta que o cônsul chinês em Ramala se desloca até Hebron, onde assina centenas de vistos de uma vez. Alguns empresários palestinos acabam morando na China e outros, embora já casados, aproveitam as viagens de negócios para se casar com chinesas, recorrendo à poligamia que o islamismo permite. Os rumores sobre casamentos de hebronitas com chinesas percorrem os territórios palestinos como pólvora.

Hamed Shawar afirma que ele não tem outra mulher na China, apesar de ter sido dos primeiros a se aventurar no mercado asiático e a cada dois meses viajar à Ásia para controlar o andamento de seus negócios. Hoje administra um próspero comércio de lenços, no qual as importações substituíram progressivamente a produção local. "Foi muito triste a decisão de deixar de produzir aqui. Tínhamos 30 trabalhadores e agora restam só dez, que nem sequer me fazem falta. Prefiro os chineses. Se não fosse por suas famílias, os demitiria", confessa sem rodeios em sua loja no centro de Hebron, no meio de sutiãs e túnicas ao gosto palestino, mas, sim, fabricados na China.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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