Não patrocine massacres. Boicote produtos israelenses.

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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

“Ditadores" não ditam ordens. Eles as obedecem.

De todos os artigos que li até agora, a análise que segue abaixo, de Michel Chossudovsky é a mais elucidadativa sobre o que realmente está por trás das últimas manifestações no Egito.

por Michel Chossudovsky
O regime Mubarak pode entrar em colapso em consequência do vasto movimento de protesto em escala nacional. Quais as perspectivas para o Egito e para o mundo árabe?
"Ditadores" não ditam ordens. Eles as obedecem. Isso é verdade tanto na Tunísia como na Argélia e no Egito.
Ditadores são sempre fantoches políticos. Os ditadores não decidem.
O presidente Hosni Mubarak foi o fiel servidor dos interesses econômicos ocidentais e assim era Ben Ali.
O governo nacional é o objeto do movimento de protesto. O objetivo é remover o fantoche em lugar do mestre do fantoche. Os slogans no Egito são "Abaixo Mubarak, abaixo o regime". Não há cartazes antiamericanos... A influência avassaladora e destrutiva dos EUA no Egito e em todo o Oriente Médio permanece oculta. As potências estrangeiras que operam nos bastidores estão protegidas do movimento de protesto.
Nenhuma mudança política significativa se verificará a menos que a questão da interferência estrangeira seja tratada de modo explícito pelo movimento de protesto.
A Embaixada dos EUA no Cairo é uma entidade política importante, sempre ofuscando o governo nacional, e não é alvo do movimento de protesto. No Egito, em 1991, foi imposto um devastador programa do FMI na altura da Guerra do Golfo. Ele foi negociado em troca da anulação da multimilionária dívida militar do Egito para com os EUA, bem como de sua participação na guerra. A resultante desregulamentação dos preços dos alimentos, a privatização geral e medidas de austeridade maciças levaram ao empobrecimento da população egípcia e à desestabilização da sua economia.
O Egito era louvado como um "aluno modelo" do FMI. O papel do governo de Ben Ali na Tunísia foi impor os remédios econômicos mortais do FMI, os quais, num período de mais de vinte anos, serviram para desestabilizar a economia nacional e empobrecer a população tunisiana. Ao longo dos últimos 23 anos, a política econômica e social na Tunísia foi ditada pelo Consenso de Washington.
Tanto Hosni Mubarak como Ben Ali permaneceram no poder porque seus governos obedeceram e aplicaram efetivamente os diktats do FMI. De Pinochet e Videla a Baby Doc, Ben Ali e Mubarak, os ditadores têm sido instalados por Washington. Historicamente, na América Latina, os ditadores eram nomeados por meio de uma série de golpes militares patrocinados pelos EUA. Hoje eles são nomeados por intermédio de "eleições livres e justas" sob a supervisão da comunidade internacional.
Nossa mensagem ao movimento de protesto: as decisões reais são tomadas em Washington DC, no Departamento de Estados dos EUA, no Pentágono, em Langley, sede da CIA, na H Street NW, as sedes do Bando Mundial e do FMI. O relacionamento do "ditador" com interesses estrangeiros deve ser considerado. Derrubar fantoches políticos, sim, mas não esquecer de mirar os "ditadores reais".
O movimento de protesto deveria centrar-se na poltrona real da autoridade política; deveria ter como alvo a Embaixada dos EUA, a delegação da União Europeia, as missões nacionais do FMI e do Banco Mundial.
Uma mudança política significativa só pode ser assegurada se a agenda de política econômica neoliberal for jogada fora.
Substituição de regime
Se o movimento de protesto deixar de tratar o papel das potências estrangeiras, incluindo pressões exercidas por "investidores", credores externos e instituições financeiras internacionais, o objetivo da soberania nacional não será alcançado. Nesse caso, ocorrerá um processo estreito de "substituição de regime", o qual assegura continuidade política.
"Ditadores" são postos e depostos. Quando eles estão politicamente desacreditados e já não servem aos interesses dos seus patrocinadores estadunidenses, são substituídos por um novo líder, muitas vezes recrutado dentro das fileiras da oposição política.
Na Tunísia, a administração Obama já se posicionou. Ela pretende desempenhar um papel-chave no "programa de democratização" (isto é, manutenção das chamadas “eleições justas”). Ela também pretende utilizar a crise política como um meio de enfraquecer o papel da França e consolidar a sua posição no norte da África:
"Os Estados Unidos, que foram rápidos em avaliar a vaga de protesto nas ruas da Tunísia, procuram pressionar em seu proveito, a fim de promover reformas democráticas no país e outras mais além.
O alto enviado dos EUA para o Médio Oriente, Jeffrey Feltman, foi o primeiro responsável estrangeiro a chegar ao país depois de o presidente Zine El Abidine Ben Ali ser derrubado em 14 de janeiro e suavemente apelou a reformas. Ele disse na terça-feira que só eleições livres e justas fortaleceram e dariam credibilidade à liderança sob ataque do estado norte-africano.
"Espero utilizar o exemplo tunisiano em conversas com outros governos árabes”, acrescentou o secretário de Estado Feltman.
Ele foi despachado para o país norte-africano a fim de oferecer ajuda dos EUA na turbulenta transição de poder e encontrar-se com ministros e figuras da sociedade civil tunisiana.
Feltman viaja para Paris na quarta-feira a fim de discutir a crise com líderes da França, promovendo a impressão de que os EUA conduz o apoio internacional a uma nova Tunísia, em detrimento da antiga potência colonial, a França.
Países ocidentais apoiaram por longo tempo a derrubada liderança da Tunísia, encarando-a como um baluarte contra militantes islâmicos na região norte-africana. Em 2006, o então secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, falando em Túnis, louvou a evolução do país. A secretária de Estado Hillary Clinton, agilmente, interveio com um discurso em Doha a 13 de janeiro, advertindo líderes árabes para permitirem a seus cidadãos maiores liberdades ou [sofreriam] o risco de extremistas explorarem a situação.
"Não há dúvida de que os Estados Unidos procuram posicionar-se muito rapidamente do lado bom..." (AFP: US helping shape outcome of Tunisian).
Será que Washington terá êxito em nomear um novo regime fantoche?
Isso depende muito da capacidade do movimento de protesto de tratar o papel insidioso dos EUA nos assuntos internos do país. Os poderes avassaladores do império não são mencionados. Numa ironia amarga, o presidente Obama exprimiu o seu apoio ao movimento de protesto.
Muitas pessoas dentro do movimento de protesto são levadas a acreditar que o presidente Obama está comprometido com a democracia e os direitos humanos e é apoiador da resolução da oposição de destronar o ditador, o qual foi instalado pelos EUA.
Cooptação de líderes da oposição
A cooptação dos líderes dos principais partidos da oposição, de organizações da sociedade civil, na previsão do colapso de um governo fantoche autoritário faz parte dos desígnios de Washington, aplicados em diferentes regiões do mundo. O processo de cooptação é implementado e financiado pelos EUA com base em fundações incluindo o National Endowment for Democracy (NED) e o Freedom House (FH). Tanto o FH como o NED têm ligações ao Congresso dos EUA, ao Council on Foreign Relations (CFR) e ao establishment de negócios estadunidense. Tanto o NED como o FH são conhecidos por terem laços com a CIA.
O NED está envolvido ativamente na Tunísia, no Egito e na Argélia. A Freedom House apoia várias organizações da sociedade civil no Egito.
"O NED foi estabelecido pela administração Reagan depois de o papel da CIA nos financiamentos encobertos para derrubar governos estrangeiros ter sido trazido à luz, levando ao descrédito de partidos, movimentos, revistas, livros, jornais e indivíduos que receberam financiamento da CIA. ... Como uma fundação bipartidária, com participação dos dois principais partidos, bem como da AFL-CIO e da US Chamber of Commerce, o NED assumiu o comando do financiamento de movimentos para derrubar governos estrangeiros, mas abertamente e sob a rubrica da "promoção da democracia". (Stephen Gowans, January 2011. "What's left")
Embora os EUA tenham apoiado o governo Mubarak durante os últimos trinta anos, fundações dos EUA com laços no Departamento de Estado e no Pentágono apoiaram ativamente a oposição política, incluindo o movimento da sociedade civil. Segundo a Freedom House: "A sociedade civil egípcia é tanto vibrante como constrangida. Há centenas de organizações não governamentais dedicadas a expandir direitos civis e políticos no país, operando num ambiente altamente regulado". (Freedom House Press Releases).
Numa ironia amarga, Washington apoia a ditadura Mubarak, incluindo suas atrocidades, enquanto também apoia e financia seus detratores, através das atividades do FH, NED, dentre outras.
O esforço da Freedom House para envolver uma nova geração de advogados proporcionou resultados tangíveis e o programa New Generation, no Egito, ganhou proeminência tanto em nível local como internacional. Membros visitantes egípcios de todos os grupos da sociedade civil receberam [em maio de 2008] atenção sem precedentes e reconhecimento, incluindo reuniões em Washington com o secretário de Estado, o conselheiro de Segurança Nacional e membros eminentes do Congresso. Nas palavras de Condoleezza Rice, eles representam a "esperança para o futuro do Egito". (http://www.freedomhouse.org/template.cfm?page=66&program=84)
Política dupla: conversar com "ditadores", misturar-se com "dissidentes"
Sob os auspícios da Freedom House, em maio de 2008 dissidentes egípcios e oponentes de Hosni Mubarak foram recebidos por Condoleezza Rice no Departamento de Estado e no Congresso dos EUA.
Em maio de 2009, Hillary Clinton encontrou-se com uma delegação de dissidentes egípcios, visitando Washington sob os auspícios da Freedom House. Foram reuniões de alto nível. Esses grupos de oposição, que desempenham um papel importante no movimento de protesto, estão destinados a servir aos interesses dos EUA. Os EUA são apresentados como um modelo de liberdade e de justiça. O convite de dissidentes para o Departamento de Estado e o Congresso dos EUA pretende instilar um sentimento de compromisso e lealdade a valores democráticos estadunidenses.
Os mestres dos fantoches apoiam o movimento de protesto contra os seus próprios fantoches. Chama-se a isso "alavancagem política", "fabricação de dissidentes". O apoio a ditadores, bem como a oponentes do ditador, é um meio de controlar a oposição política.
Essas ações, por parte da Freedom House e do National Edowment for Democracy, por conta das administrações Bush e Obama, asseguram que a oposição da sociedade civil financiada pelos EUA não dirigirá suas energias contra os mestres do fantoche por trás do regime Mubarak, nomeadamente o governo dos EUA.
Essas organizações da sociedade civil financiadas pelos EUA atuam como um "cavalo de Troia" incorporado dentro do movimento de protesto. Elas protegem os interesses dos mestres do fantoche. Asseguram que o movimento de protesto das bases não considerará a questão mais vasta da interferência estrangeira nos assuntos internos de Estados soberanos.
Facebook, Twitter e blogueiros apoiados e financiados por Washington
Em relação ao movimento de protesto no Egito, vários grupos da sociedade civil financiados por fundações com sede nos EUA têm dirigido o protesto com o Twitter e o Facebook:
"Ativistas do movimento Kifaya (Basta) do Egito – uma coligação de opositores ao governo – e o Movimento da Juventude 6 de Abril organizaram os protestos nas redes sociais dos sítios web do Facebook e Twitter". (Ver Voice of America, Egypt Rocked by Deadly Anti-Government Protests). O movimento Kifaya, que organizou uma das primeiras ações dirigidas contra o regime Mubarak em 2004, é apoiado pelo International Center for Non-Violent Conflict, com sede nos EUA, ligado à Freedom House. Por sua vez, a Freedom House está envolvida na promoção e no treino do Facebook e de blogs Twitter no Oriente Médio e no norte da África.
Os assistidos pela Freedom House adquiriram qualificações em mobilização cívica, liderança e planejamento estratégico, e se beneficiam de oportunidades em rede através da interação com doadores, organizações internacionais e a mídia baseados em Washington. Depois de retornarem ao Egito, os assistidos receberam pequenas subvenções para implementar iniciativas inovadoras, como advogar a reforma política no Facebook e em mensagens SMS. (http://www.freedomhouse.org/template.cfm?page=66&program=84)
De 27 de fevereiro a 13 de março [2010], a Freedom House hospedou 11 blogueiros do Oriente Médio e do norte da África [de diferentes organizações da sociedade civil] para um Advanced New Media Study Tour de duas semanas em Washington, DC. O Study Tour deu aos blogueiros treino em segurança digital, feitura de vídeos digitais, desenvolvimento de mensagens e mapeamento digital. Também participaram de uma reunião no Senado e encontraram-se com responsáveis de alto nível na USAID, no Departamento de Estado e no Congresso, bem como com a mídia internacional, incluindo a Al-Jazeera e o Washington Post [jornal dirigido por sionistas]. (http://www.freedomhouse.org/template.cfm?page=115&program=84&item=87)
Pode-se facilmente perceber a importância concedida pela administração dos EUA a esse programa de treino de blogueiros, complementado com reuniões no Senado, no Congresso, no Departamento de Estado etc.
O papel do movimento no Facebook e no Twitter como expressão de dissidência deve ser cuidadosamente avaliado à luz de ligações de várias organizações da sociedade civil à Freedom House, à National Endowment for Democracy e ao Departamento de Estado dos EUA.
A Fraternidade Muçulmana
A Fraternidade Muçulmana constitui o maior segmento da oposição ao presidente Mubarak. Segundo informações, a Fraternidade Muçulmana domina o movimento de protesto.
Apesar de haver uma proibição constitucional de partidos políticos religiosos, membros eleitos ao parlamento egípcio como "independentes" constituem o maior bloco parlamentar.
A Fraternidade, contudo, não constitui uma ameaça direta aos interesses econômicos e estratégicos de Washington na região. Agências de inteligência ocidentais têm uma longa história de colaboração com a Fraternidade. O apoio britânico à Fraternidade, instrumentado pelo Serviço Secreto Britânico, remonta à década de 1940. A partir da década de 1950, segundo o antigo responsável de inteligência, William Baer, "A CIA [canalizou] apoio à Fraternidade Muçulmana devido à louvável capacidade da Fraternidade para derrubar Nasser". (1954-1970: CIA and the Muslim Brotherhood Ally to Oppose
Egyptian President Nasser)
Essas ligações encobertas da CIA foram mantidas na era pós-Nasser.
Notas conclusivas
A remoção de Hosni Mubarak está há vários anos nos planos da política externa dos EUA.
A substituição de regime serve para assegurar continuidade, ao mesmo tempo que proporciona a ilusão de que se verificou uma mudança política significativa.
A agenda de Washington para o Egito tem sido "sequestrar o movimento de protesto" e substituir o presidente Hosni Mubarak por um novo fantoche complacente na chefia do Estado.
O objetivo de Washington é sustentar os interesses de potências estrangeiras e defender a agenda econômica neoliberal que serviu para empobrecer a população egípcia.
Do ponto de vista de Washington, a substituição de regime não exige mais a instalação de um regime militar autoritário, como no auge do imperialismo estadunidense. Ele pode ser implementado pela cooptação de partidos políticos, incluindo a esquerda, financiamento de grupos da sociedade civil, infiltração no movimento de protesto e manipulação de eleições nacionais.
Em relação ao movimento de protesto no Egito, o presidente Obama declarou, num vídeo de 28 de janeiro difundido no Youtube: "O governo não deveria recorrer à violência".
A questão mais fundamental é: qual a fonte daquela violência?
O Egito é o maior receptor de ajuda militar dos EUA. Os militares egípcios são considerados a base de poder do regime Mubarak.
As políticas estadunidenses impostas ao Egito e ao mundo árabe durante mais de vinte anos, a par de reformas de "mercado livre" e da militarização do Oriente Médio, são a causa e a raiz da violência de Estado.
A intenção dos EUA é utilizar o movimento de protesto para instalar um novo regime.
O Movimento Popular deveria redirecionar suas energias: identificar o relacionamento entre os EUA e "o ditador". Destronar o fantoche político dos EUA mas não esquecer o alvo dos "ditadores reais".
Desviar o processo de mudança de regime.
Desmantelar as reformas neoliberais.
Fechar as bases militares dos EUA no Egito e no mundo árabe.
Estabelecer um governo realmente soberano.
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© Copyright Michel Chossudovsky, Global Research, 2011
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domingo, 16 de janeiro de 2011

Yehuda Shaul, ex-oficial israelense, fala a jornalista francesa

“Criamos um monstro: a ocupação” Catherine Schwaab (jornalista do Paris Match) — 12/1/2011 Nesta entrevista ao Paris Match do ex-oficial do Tsahal (exército israelense) Yehuda Shaul, ex-oficial do exército israelita com 28 anos, e autor de Breaking the Silence [Quebrando o silêncio], fica claro que a política dos parceiros Israel–EUA não só não resolve o problema, como se assenta numa série de crimes contra a humanidade exercidos sobre os palestinos.
A mentira e o terrorismo de Estado pode durar mais de seis décadas, como acontece na Palestina, mas não durarão para sempre…

Catherine Schwaab (CS): O seu livro é uma bomba pelas suas revelações: que efeito concreto espera?

Yehuda Shaul (YS): Espero poder enfim suscitar uma verdadeira discussão séria em Israel pois, desta vez, os nossos testemunhos são numerosos, verificados, incontestáveis: são 180 e tiramos deles uma análise, o que é novo. Pensa que a opinião pública ignora o que significa a ocupação militar dos territórios palestinos? O público tem clichês na cabeça que incitam à aprovação cega. Por exemplo, em hebreu, a política israelita nos territórios ocupados resume-se a quatro termos que não se pode contestar: «sikkul» (a prevenção do terrorismo), «afradah» (a separação entre a população israelita e a população palestina), «mirkam hayyim» (o «fabrico» da existência palestina) e «akhifat hok» (a aplicação das leis nos territórios ocupados). Na realidade, sob esses nomes em código escondem-se terríveis desvios que vão do sadismo à anarquia e rejeitam os mais elementares direitos da pessoa. Isso vai até aos assassinatos de indivíduos inocentes que se calcula serem terroristas. E não falo das prisões arbitrárias e dos assédios de toda a espécie.

CS: Qual é o objetivo disso?

YS: Está claramente definido: é o de mostrar a presença permanente do exército, de produzir o sentimento de ser-se perseguido, controlado, em suma, trata-se de impor o medo a todos na sociedade palestina. Opera-se de maneira irracional, imprevisível, criando um sentimento de insegurança que quebra a rotina.

CS: A ocupação dos territórios não será necessária para evitar «surpresas» terroristas?

YS: Não! A ocupação sistemática não se justifica, pois ela abrange uma série de interdições e de entraves inadmissíveis. Queremos discutir sobre isso agora. Nem no seio do exército nem no seio da sociedade civil ou política se quer enfrentar a verdade. E essa verdade é que nós criamos um monstro: a ocupação.

CS: Pode esperar-se que discussões sérias sobre a paz melhorem a situação?

YS: Não, tentar acabar com o conflito é uma coisa, acabar com a ocupação é outra. Estamos todos de acordo para procurar a paz, mas esquecemos a ocupação. Ora, é preciso começar por aí.

CS: Os seus testemunhos revelam a incrível impunidade de que se beneficiam os colonos, verdadeiros assistentes militares: eles brutalizam os vizinhos palestinos, levam os seus filhos à agressividade e ao ódio aos árabes…

YS: Certamente, mas não são eles o problema. É o mecanismo de ocupação que lhes deu esse poder desmedido. Eu, quando era militar em Hebron, não podia deter um colono que estivesse a infringir abertamente a lei sob os meus olhos. Eles fazem parte desse sistema imoral.

CS: Pensa encontrar um apoio na opinião israelita?

YS: Por enquanto, somos minoritários mas otimistas! Temos de sê-lo, pois vivemos tempos sombrios, a opinião israelita é apática, as pessoas estão fartas. E o preço a pagar por esta ocupação não é pesado. É a razão por que não há vontade política. Em contrapartida, o preço moral é enorme.

CS: É a primeira vez que são feitas tais revelações?

YS: Não, há um ano, tínhamos contado as pilhagens na faixa de Gaza e tínhamos sido atacados por todos os lados: pelo exército, pela sociedade civil e a sociedade política. Netanyahu acusou-nos de termos «ousado quebrar o silêncio». Mas que silêncio? É um silêncio vergonhoso sobre um escândalo estrondoso! Eles fizeram tudo para nos desacreditar. Saiu-lhes mal, pois nós somos todos antigos oficiais que vivemos esses acontecimentos terríveis.

CS: Precisamente, muitos soldados e oficiais que se expressam parecem traumatizados pelo que tiveram de fazer. Um sofrimento que permanece.

YS: Sim… Enfim, não nos enganemos: as vítimas, são os palestinos que aguentam esse controle. Hei de sempre recordar a resposta de um comandante do exército durante uma discussão televisiva em 2004. Tínhamos organizado uma exposição de fotografias com um vídeo de testemunhos. Ele disse-me: «Concordo com o que vocês mostram, mas é assim, temos de aceitá-lo, isso chama-se crescer, tornar-se adulto». Fiquei sem palavras.

CS: Algumas pessoas pensam que Israel tem interesse em manter o conflito e que os palestinos nunca terão as suas terras.

YS: É falso. É impossível erradicar uma população de 3,5 milhões de habitantes. O problema não está em dar-lhes uma terra, mas na obsessão de querer controlá-los.

CS: Serão as jovens gerações dos 20-30 anos mais permeáveis a seu ponto de vista?

YS: Nem toda a minha geração está de acordo comigo, mas ninguém pode dizer que minto. Somos todos ex-membros do exército nacional, pagamos o preço, ganhamos o direito de falar. É preciso que os espíritos mudem a partir de dentro.

CS: Você é judeu ortodoxo e tem um discurso estranhamente aberto. A sua fé ajuda-o neste combate?

YS: Nem por isso… Mas eu sei o que significa ser judeu religioso: não ficar silencioso perante o que está mal. E quero trazer uma solução, não um problema.

A versão em português deste texto foi publicada em: http://www.egaliteetreconciliation.fr/ Fonte: ODiario.info

sábado, 15 de janeiro de 2011

Caro Egberto Gismonti, às vezes a música não pode estar separada da política

Abaixo a tradução do email do Ofer (e mais abaixo o email original em inglês), um ativista israelense do grupo BFW- Call from Within (Chamada desde dentro) que apóia o BDS (Boicote Desinvestimento e Sanções) e que escreveu a carta abaixo para o Egberto Gismonti.

Caro Egberto Gismonti,
Somos um grupo de cidadãos israelenses que apóiam a campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra as políticas de Israel de ocupação, de racismo e de apartheid. Além disso, muitos de nós são ativistas veteranos que têm adotado essa posição depois de anos de tentativa de pôr fim a estas políticas por outros meios.
Estamos entre os seus fãs. Em nossa opinião, a sua música reflete a natureza misteriosa e encantadora da natureza virgem do Brasil, bem como a diversidade musical de seus povos indígenas, em particular. Por respeito à sua personalidade e suas realizações, nós gostaríamos que você soubesse que a sua visita planejada para Israel será um ato político, assim como uma decisão de não se apresentar em Israel. Acreditamos também que essa visita servirá para legitimar as políticas de Israel, que certamente você não apóia. Algumas das razões para esta nossa opinião seguem.
Os artistas internacionais que estão vindo se apresentar em Israel estão envolvidos com o governo de Israel e são utilizados como ferramentas de propaganda. Um desses grupos é Artists 4 Israel, em cujo blogroll você pode ler um endosso público entusiástico (http://artists4israel.blogspot.com/2010/12/dear-vanessa-paradis-johnny-depp-karl.html) enviado para Johnny Depp, Vanessa Paradis e três outras celebridades, que estão agendadas para visitar Israel em breve. Este grupo bem financiado, talvez o principal movimento contra-BDS, o projeto Hasbara (de defesa) em Israel, também defende o projeto ilegal e violento de assentamento (http://www.friendsofariel.org/sslarticlenav.php?id=155 ) em consonância com as políticas oficiais israelenses. Há também outras maneiras em que os artistas que se apresentam em Israel estão associados com as políticas israelenses. Por exemplo, quando Elton John se apresentou aqui no ano passado, bandeiras israelenses foram balançadas por membros do público.
De acordo com nossa experiência, quando os artistas vêm para tocar em lugares mainstreans israelenses, eles ajudam os líderes a mascarar os problemas. As coisas continuam como sempre, e não há necessidade de questionamentos ou reforma.
Israelenses já ouviram mensagens (sinceras e benevolentes) de paz de muitos artistas que vieram se apresentar aqui. O grande músico, Paul McCartney insistiu em se apresentar pela paz. No entanto, mesmo o grande Beatle não fez nenhum impacto com suas palavras, porque suas ações toleraram e apoiaram as políticas de nossas lideranças.
Em contraste com isso, a ação corajosa de se recusar a participar de uma democracia de fachada ainda pode inspirar muitas pessoas que já admiram sua música: A maioria dos cidadãos de Israel apoiou a atroz "Operação Cast Lead" (http://www.jpost.com/Israel/Article.aspx?id=127132 ), em que bombas de fósforo foram lançadas sobre áreas densamente povoadas, centenas de crianças foram mortas e milhares de casas foram demolidas. Quando o cancelamento de Elvis Costello e Gil Scott-Heron foram anunciados, os israelenses foram obrigados a analisar o porquê do cancelamento. Mais tarde, depois do ataque mortal de Israel à flotilha da liberdade (o esforço internacional para levar ajuda e atenção a Gaza), os Pixies também cancelaram sua apresentação em Israel. Novamente, artigos e programas de televisão debateram a decisão e os efeitos dos ataques injustificados de Israel contra Gaza e contra os ativistas. No entanto, sem lembretes constantes, a sociedade israelense tende a voltar rapidamente para sua rotina de "business as usual".
Em vista disso, estamos pedindo a você para se juntar ao crescente grupo de músicos e escritores que se recusam a participar de eventos que perpetuam a impunidade do nosso governo, e se abstenha de se apresentar em Israel, até que as suas políticas de ocupação de racismo e de apartheid sejam invertidas .
Teremos prazer em responder a quaisquer perguntas ou comentários que os membros da banda possam ter.

Atenciosamente,

Ronnen Ben-Arie
Shir Hever
Eytan Lerner
Em nome da
BOICOTE! Apoiando a chamada palestina para o BDS, Call From Within (ativistas israelenses para o BDS)
email : xboycott.israelx@gmail.comweb: www.boycottisrael.info7

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Carta aberta vinda da Gaza sitiada: Dois anos após o massacre, uma exigência de justiça

Gaza sitiada, Palestina — Nós os palestinos da Faixa Sitiada de Gaza, neste dia, dois anos após o ataque genocida de Israel às nossas famílias, nossas casas, estradas, fábricas e escolas, estamos a dizer: basta de inação, chega de discussão, chega de esperar – este é o momento para responsabilizar Israel pelos seus crimes permanentes contra nós. Em 27 de Dezembro de 2008, Israel principiou um bombardeamento indiscriminado da Faixa de Gaza. O assalto perdurou durante 22 dias, matando 1417 palestinos, 352 dos quais crianças, segundo importantes Organizações de Direitos Humanos. Durante estarrecedoras 528 horas, as forças de ocupação de Israel lançaram a partir dos seus F15s e F16 fornecidos pelos EUA e dos seus tanques Merkava, munições internacionalmente proibidas de fósforo branco, além de bombardear e invadir o pequeno enclave costeiro palestino que é o lar de 1,5 milhão de pessoas, das quais 800 mil são crianças e mais de 80 por cento refugiados registados pela ONU. Cerca de 5300 estão permanentemente lesionados.
Esta devastação excedeu em selvageria todos os massacres sofridos anteriormente por Gaza, tais como as 21 crianças mortas em Jabalia em Março de 2008 ou os 19 civis mortos quando abrigados nas suas casas no Massacre de Bei Hanoun de 2006. A carnificina excedeu mesmo os ataques de Novembro de 1956 nos quais tropas israelenses agruparam e mataram 275 palestinos na cidade sulista de Khan Younis e mais 111 em Rafah.
Desde o massacre de Gaza de 2009, cidadãos do mundo tomaram a responsabilidade de pressionar Israel a cumprir com o direito internacional, através de uma estratégia de boicote, desinvestimento e sanções (BDS). Tal como no movimento BDS global que foi tão efetivo para terminar o regime do apartheid sul-africano, instamos as pessoas com consciência a aderirem ao apelo ao BDS feito em 2005 por mais de 170 organizações palestinas. Tal como na África do Sul, o desequilíbrio de poder e representação nesta luta pode ser contra-balançado por um poderoso movimento internacional de solidariedade com o BDS, obrigando decisores políticos israelenses a prestar contas, algo que a comunidade governante internacional tem reiteradamente fracassado em fazer. Analogamente, esforços civis criativos tais como os navios Free Gaza que romperam o sítio cinco vezes, a Marcha pela Libertação de Gaza, a Frota pela Liberdade Gaza e muitos comboios por terra nunca devem cessar a sua ruptura do cerco, destacando a desumanidade de manter 1,5 milhão de habitantes de Gaza numa prisão ao ar livre.
Já se passaram dois anos desde os mais graves actos genocidas de Israel, que deveriam ter desfeito quaisquer dúvidas sobre a dimensão brutal dos planos de Israel para os palestinos. O assalto naval assassino a ativistas internacionais a bordo da Frota da Libertação de Gaza, no Mar Mediterrâneo, mostrou ao mundo o pouco valor que Israel atribui desde há muito à vida palestina. O mundo agora sabe, mas dois anos depois nada mudou para os palestinos.
O Relatório Goldstone veio e foi: apesar de listar uma por uma as contravenções do direito internacional, apesar dos "crimes de guerra" israelenses e dos "possíveis crimes contra a humanidade", de a União Europeia, as Nações Unidas, Cruz Vermelha e todas as principais Organizações de Direitos Humanos apelaram a uma finalização do sítio medieval, ele continua sem pausa. Em 11 de Novembro de 2010 o responsável da UNRWA [Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos], John Ging, disse: "Não tem havido mudança material para o povo aqui no terreno em termos do seu status, da dependência da ajuda, da ausência de qualquer recuperação ou reconstrução, nenhuma economia... O alívio, como foi descrito, tem sido nada mais do que um alívio político da pressão sobre Israel e o Egipto".
Em 2 de Dezembro, 22 organizações internacionais incluindo a Amnistia, Oxfam, Save the Children, Christian Aid e Medical Aid for Palestinians produziu o relatório "Esperanças frustradas, continuação do bloqueio de Gaza" ("Dashed Hopes, Continuation of the Gaza Blockade") apelando à acção internacional para forçar Israel e levantar incondicionalmente o bloqueio, afirmando que os palestinos de Gaza sob o sítio israelense continuam a viver nas mesmas condições devastadoras. A apenas uma semana o Human Rights Watch publicou um relatório amplo, "Separados e desiguais" ("Separate and Unequal) que denunciou as políticas israelenses como apartheid, reflectindo sentimentos semelhantes de ativista anti-apartheid sul-africanos.
Nós palestinos de Gaza queremos viver em liberdade para encontrar amigos ou familiares palestinos de Tulkarem, Jerusalém ou Nazaré, queremos ter o direito de viajar e nos movimentarmos livremente. Queremos viver sem o medo de outra campanha de bombardeamento que deixe centenas dos nossos filhos mortos e muitos mais feridos ou com cancros devidos à contaminação do fósforo branco e da guerra química de Israel. Queremos viver sem as humilhações nos postos de controle israelenses ou a indignidade de não prover as nossas famílias devido ao desemprego provocado pelo controle econômico e o sítio ilegal. Estamos a apelar a um fim ao racismo em que se apoia toda esta opressão.
Perguntamos: quando os países do mundo atuarão de acordo com a premissa básica de que os povos deveriam ser tratados igualmente, sem importar a sua origem, etnicidade ou cor – será tão absurdo pretender que uma criança palestina mereça os mesmos direitos humanos tal como qualquer outro ser humanos? Será você capaz de olhar em retrospectiva e dizer que esteve do lado certo da história ou terá alinhado com o opressor?
Nós, portanto, apelamos à comunidade internacional para assumir a sua responsabilidade de proteger o povo palestino da odiosa agressão israelense, terminando imediatamente o sítio com plena compensação pela destruição das nossas vidas e infraestruturas por esta política explícita de punição colectiva. Não há nada que justifique as políticas intencionais de selvageria, incluindo o corte de acesso ao abastecimento de água e eletricidade a 1,5 milhão de pessoas. A conspiração internacional de silêncio quanto à guerra genocida que está a ter lugar contra mais de 1,5 milhão de civis em Gaza indica cumplicidade nestes crimes de guerra.
Também apelamos a todos os grupos de solidariedade com a Palestina e todas as organizações internacionais da sociedade civil a exigirem:
* Fim ao sítio que tem sido imposto ao povo palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza em resultado do seu exercício de escolha democrática.* A protecção de vivas e propriedade civis, como estipulado no Direito Humanitário Internacional e na Lei Internacional dos Direitos Humanos, assim como na Quarta Convenção de Genebra.* A imediata libertação de todos os prisioneiros políticos.* Que aos refugiados palestinos na Faixa de Gaza seja imediatamente providenciado apoio financeiro e material para enfrentar as imensas adversidades que estão a experimentar.* Fim da ocupação, ao apartheid e a outros crimes de guerra.* Reparações imediatas e compensação por toda a destruição executada pelas forças de ocupação de Israel na Faixa de Gaza.
Boicote, Desinvestimento e Sanção, adira aos muitos sindicatos, universidades, super-mercados, artistas e escritores internacionais que se recusam a ter relações com a Israel do Apartheid. Falar alto e claro pela Palestina, por Gaza e, crucialmente, ATUAR. O momento é este.
Gaza Sitiada, Palestina
27 de Dezembro de 2010

Lista de signatários:
General Union for Public Services Workers
General Union for Health Services Workers
University Teachers' Association
Palestinian Congregation for Lawyers
General Union for Petrochemical and Gas Workers
General Union for Agricultural Workers
Union of Women's Work Committees
Union of Synergies—Women Unit
The One Democratic State Group
Arab Cultural Forum
Palestinian Students' Campaign for the Academic Boycott of Israel
Association of Al-Quds Bank for Culture and Info
Palestine Sailing Federation
Palestinian Association for Fishing and Maritime
Palestinian Network of Non-Governmental Organizations
Palestinian Women Committees
Progressive Students' UnionMedical Relief Society
The General Society for Rehabilitation
General Union of Palestinian Women
Afaq Jadeeda Cultural Centre for Women and Children
Deir Al-Balah Cultural Centre for Women and Children
Maghazi Cultural Centre for Children
Al-Sahel Centre for Women and Youth
Ghassan Kanfani Kindergartens
Rachel Corrie Centre, Rafah
Rafah Olympia City Sisters
Al Awda Centre, RafahAl Awda Hospital, Jabaliya Camp
Ajyal Association, Gaza
General Union of Palestinian Syndicates
Al Karmel Centre, Nuseirat
Local Initiative, Beit Hanoun
Union of Health Work Committees
Red Crescent Society Gaza Strip
Beit Lahiya Cultural Centre
Al Awda Centre, Rafah

O original encontra-se em http://www.countercurrents.org/0l271210.htm e em http://resistir.info.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ex oficiais israelenses admitem atrcidades sistemáticas contra palestinos


Granadas para provocar o medo

“Aparecemos de repente numa aldeia palestiniana, às 3h da madrugada, e começamos a lançar granadas de aturdimento nas ruas. Para nada, para provocar o medo. Víamos as pessoas acordarem desvairadas… Diziam-nos que isso punha em fuga eventuais terroristas. Balelas… Fazíamos isso todas as noites, rotativamente. Uma rotina. Diziam-nos: ‘Bela operação’. Nós não compreendíamos porquê.”


Criámos um monstro: a ocupação

Pela primeira vez, ex-oficiais do exército israelita dão a cara para denunciar os crimes de Israel em Gaza. Eis uma entrevista de Yehuda Shaul, fundador da ONG Breaking the Silence e autor do livro do mesmo nome. Seguem-se algumas declarações de outros ex-oficiais na mesma organização. Por ex-oficiais israelitas, entrevista de Catherine Schwaab

Yehuda Shaul, 28 anos, ex-oficial do exército israelita, é autor de Breaking the Silence [Quebrar o silêncio], um livro acontecimento que será publicado em Janeiro, onde os combatentes do Tsahal [o exército israelita] contam o seu intolerável comportamento nos territórios ocupados em Gaza. Uma entrevista de Catherine Schwaab publicada na revista francesa Paris Match.

Catherine Schwaab [CS]: O seu livro é uma bomba pelas suas revelações: que efeito concreto espera?

Yehuda Shaul [YS]: Espero poder enfim suscitar uma verdadeira discussão séria em Israel pois, desta vez, os nossos testemunhos são numerosos, verificados, incontestáveis: são 180 e tiramos deles uma análise, o que é novo.

CS: Pensa que a opinião pública ignora o que significa a ocupação militar dos territórios palestinianos?

YS: O público tem clichés na cabeça que incitam à aprovação cega. Por exemplo, em hebreu, a política israelita nos territórios ocupados resume-se a quatro termos que não se pode contestar: “sikkul” (a prevenção do terrorismo), “afradah” (a separação entre a população israelita e a população palestiniana), “mirkam hayyim” (o “fabrico” da existência palestiniana) e “akhifat hok” (a aplicação das leis nos territórios ocupados). Na realidade, sob esses nomes de código escondem-se terríveis desvios que vão do sadismo à anarquia e rejeitam os mais elementares direitos da pessoa. Isso vai até aos assassinatos de indivíduos inocentes que se calcula serem terroristas. E não falo das prisões arbitrárias e dos assédios de toda a espécie.

CS: Qual é o objectivo disso?

YS: Está claramente definido: é o de mostrar a presença permanente do exército, de produzir o sentimento de ser-se perseguido, controlado, em suma, trata-se de impor o medo a todos na sociedade palestiniana. Opera-se de maneira irracional, imprevisível, criando um sentimento de insegurança que quebra a rotina.

CS: A ocupação dos territórios não será necessária para evitar «surpresas» terroristas?

YS: Não! A ocupação sistemática não se justifica, pois ela abrange uma série de interdições e de entraves inadmissíveis. Queremos discutir sobre isso agora. Nem no seio do exército nem no seio da sociedade civil ou política se quer enfrentar a verdade. E essa verdade, é que nós criámos um monstro: a ocupação.

CS: Pode esperar-se que discussões sérias sobre a paz melhorem a situação?

YS: Não, tentar acabar com o conflito é uma coisa, acabar com a ocupação é outra. Estamos todos de acordo para procurar a paz, mas esquecemos a ocupação. Ora, é preciso começar por aí.

CS: Os vossos testemunhos revelam a incrível impunidade de que beneficiam os colonos, verdadeiros assistentes militares: eles brutalizam os vizinhos palestinianos, levam os seus filhos à agressividade e ao ódio dos árabes…

YS: Certamente, mas não são eles o problema. É o mecanismo de ocupação que lhes deu esse poder desmedido. Eu, quando era militar em Hebron, não podia deter um colono que estivesse a infringir abertamente a lei sob os meus olhos. Eles fazem parte desse sistema imoral.

CS: Pensa encontrar um apoio na opinião israelita?

YS: Por enquanto, somos minoritários mas optimistas! Temos de sê-lo, pois vivemos tempos sombrios, a opinião israelita é apática, as pessoas estão fartas. E o preço a pagar por esta ocupação não é pesado. É a razão por que não há vontade política. Em contrapartida, o preço moral é enorme.

CS: É a primeira vez que são feitas tais revelações?


YS: Não, há um ano, tínhamos contado as pilhagens na faixa de Gaza e tínhamos sido atacados por todos os lados: pelo exército, pela sociedade civil e a sociedade política. Netanyahu acusou-nos de termos «ousado quebrar o silêncio». Mas que silêncio? É um silêncio vergonhoso sobre um escândalo estrondoso! Eles fizeram tudo para nos desacreditar. Saiu-lhes mal, pois nós somos todos antigos oficiais que vivemos esses acontecimentos terríveis.

CS: Precisamente, muitos soldados e oficiais que se expressam parecem traumatizados pelo que tiveram de fazer. Um sofrimento que permanece.

YS: Sim… Enfim, não nos enganemos: as vítimas, são os palestinianos que aguentam esse controlo. Hei-de sempre recordar a resposta de um comandante do exército durante uma discussão televisiva em 2004. Tínhamos organizado uma exposição de fotografias com um vídeo de testemunhos. Ele disse-me: «Concordo com o que vocês mostram, mas é assim, temos de aceitá-lo, isso chama-se crescer, tornar-se adulto». Fiquei sem palavras.

CS: Algumas pessoas pensam que Israel tem interesse em manter o conflito e que os palestinianos nunca terão as suas terras.

YS: É falso. É impossível erradicar uma população de 3,5 milhões de habitantes. O problema não está em dar-lhes uma terra, mas na obsessão de querer controlá-los.

CS: Serão as jovens gerações dos 20-30 anos mais permeáveis ao vosso ponto de vista?

YS: Nem toda a minha geração está de acordo comigo, mas ninguém pode dizer que minto. Somos todos ex-membros do exército nacional, pagámos o preço, ganhámos o direito de falar. É preciso que os espíritos mudem a partir de dentro.

CS: Você é judeu ortodoxo e tem um discurso estranhamente aberto. A sua fé ajuda-o neste combate?

YS: Nem por isso… Mas eu sei o que significa ser judeu religioso: não ficar silencioso perante o que está mal. E quero trazer uma solução, não um problema.

Declarações de 4 ex-oficiais, extraídas do livro Breaking the Silence

Granadas para provocar o medo

“Aparecemos de repente numa aldeia palestiniana, às 3h da madrugada, e começamos a lançar granadas de aturdimento nas ruas. Para nada, para provocar o medo. Víamos as pessoas acordarem desvairadas… Diziam-nos que isso punha em fuga eventuais terroristas. Balelas… Fazíamos isso todas as noites, rotativamente. Uma rotina. Diziam-nos: ‘Bela operação’. Nós não compreendíamos porquê.”

Roubar um hospital

“Uma noite, recebemos ordens para entrar à força numa clínica de Hebron que pertence ao Hamas. Confiscámos o equipamento: computadores, telefones, impressoras, outras coisas, ao todo um valor de milhares de sheleks [moeda de Israel = 0,21 euros, 0,47 reais]. E porquê? Atingir o Hamas financeiramente, mesmo antes das eleições para o Parlamento palestiniano, para eles as perderem. O governo israelita anunciara oficialmente que não iria tentar influenciar essas eleições…”

“Matámos um tipo por pura ignorância”

“Não sabíamos que, durante o ramadão, os fiéis saem à rua às 4 horas da manhã para acordar as pessoas, para que se alimentem antes do nascer do dia. Identificamos um tipo numa alameda que segura algo nas mãos, gritamos-lhe ‘alto!’. Então, se o ‘suspeito’ não pára imediatamente, o regulamento exige que se faça o aviso. ‘Páre ou atiro’, depois atiramos para o ar, a seguir para as pernas, etc. Matámo-lo, ponto final. E por pura ignorância dos ritos locais.”

Camponeses em pranto

“As nossas escavadoras levantam uma barreira de separação mesmo no meio de um campo de figueiras palestiniano. O camponês chega lavado em lágrimas: ‘Plantei este pomar durante dez anos, esperei dez anos que ele desse frutos, colhi-os durante um ano apenas e agora arrancam-mo pela raiz!’ Não há hipótese de replantar. Só há compensações a partir de 41% de terra confiscada. Se for só 40%, não levas nada. O pior é que amanhã, se calhar, eles vão decidir parar a construção da barreira.”

Devolver os galões [distintivos], voltar a ser soldado

“Instalamos pontos de controlo surpresa. Em qualquer lado, nunca se sabe claramente. E de repente prendemos toda a gente, controlamos todos os documentos. Ali estão mulheres, crianças, velhos, durante horas, por vezes à torreira do sol. Prendemos inocentes, pessoas que querem ir trabalhar, procurar alimentos, não são terroristas… Tive de o fazer durante cinco meses, oito horas por dia, isso deitou-me abaixo. Então decidi devolver os galões de comandante.”

“A nossa missão: incomodar, assediar”

“Estamos em Hebron. Como os terroristas são residentes locais e a nossa missão é entravar a actividade terrorista, a via operacional é esquadrinhar a cidade, entrar em casas abandonadas, ou em casas habitadas escolhidas ao acaso – não há serviço de informações para nos orientar –, revistá-las, saqueá-las… e nada encontrar. Nem armas nem terroristas. Os habitantes acabaram por se habituar. Andam irritados, depressivos, mas habituados porque é assim há anos. Fazer sofrer a população civil, fazer das suas vidas um inferno, e saber que isso não serve para nada. Dá um tal sentimento de inutilidade.”

“As punições colectivas”

“Os meus actos mais imorais? Fazer explodir casas de suspeitos terroristas, prender centenas de pessoas em massa, olhos vendados, pés e mãos atados, levá-los em camiões [caminhões]; entrar nas casas e expulsar brutalmente as famílias; às vezes voltávamos lá para fazer explodir a casa; nunca sabíamos porquê essa casa e não outra, nem quais suspeitos prender. Por vezes davam-nos ordem para destruir, com o bulldozer ou com explosivos, a entrada da aldeia, à guisa de punição colectiva por terem albergado terroristas.”

“Proteger colonos agressivos”

Chegamos subitamente ao distrito de Naplouse para garantir a segurança dos colonos. Descobrimos que eles decidiram atacar Huwara, a aldeia vizinha, palestiniana. Estão armados, atiram pedras, com o apoio de um grupo de judeus ortodoxos franceses que filmam, tiram fotografias. Resultado: ficamos entalados entre árabes surpreendidos, aterrorizados, e a nossa obrigação de proteger os colonos. Um oficial tenta fazer recuar os colonos para as suas terras, é agredido, há tiroteio, o oficial retira-se. Não sabemos o que mais fazer: sustê-los, proteger os palestinianos, proteger-nos a nós, uma cena absurda e demente. Acabámos por conseguir que os agressores voltassem para casa. Uma dezena de árabes ficaram feridos.”

Assassinar um homem desarmado

Estamos de vigia numa casa cujos ocupantes expulsámos, suspeita-se da presença de terroristas, estamos de vigia, são 2 horas da manhã. Um dos nossos atiradores localiza um tipo que caminha em cima de um telhado. Eu olho com os binóculos, tem 25 ou 26 anos, não está armado. Damos a informação por rádio ao comandante e este intima-nos: ‘É um vigia deles. Abatam-no.’ O atirador obedece. Eu chamo a isso um assassinato. Tínhamos meios de o prender. E não foi um caso único, são às dezenas.” (Texto retirado de Passa Palavra)

Versão original da entrevista (em francês) aqui.
Versão original (em francês) das declarações dos 4 oficiais extraídas do livro, aqui.