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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Mais um palestino morre por descaso no Brasil




Morre o segundo palestino da leva de refugiados que chegou ao Brasil em 2007

Do UOL Notícias
Em São Paulo

O refugiado palestino Handam Mahmoud Abu Sitta, 65, morreu nesta segunda-feira após passar dias internado no Hospital da Universidade de Brasília, onde deu entrada com uma crise respiratória

Ele fazia parte do grupo de 115 palestinos que estavam em campos na Jordânia, Iraque e Líbano e receberam asilo no Brasil em 2007. Inicialmente enviado para Mogi das Cruzes, município da Grande São Paulo que recebeu 56 desses refugiados, Abu Sitta era um dos integrantes da comissão que protestou e acampou em Brasília exigindo melhor tratamento para os refugiados por parte do Itamaraty e da ONU.
Esta é a segunda morte dentro do grupo que recebeu abrigo no Brasil. Em agosto último, Nusha El Loh morreu de pneumonia em Mogi.
Os palestinos e grupos que auxiliam refugiados apontam descaso por parte do governo federal, das Nações Unidas e inclusive da Cáritas, organização católica responsável que recebeu a missão de amparar os refugiados. As autoridades, por seu lado, negam falta de assistência.
Atualmente, os palestinos negociam com a Prefeitura de Mogi das Cruzes para que o município auxilie mais ativamente na adaptação do grupo ao cotidiano da cidade.
Muitos palestinos apresentam problemas de saúde pelas condições em que viveram nos campos durante os recentes conflitos no Oriente Médio.
do UOL Notícias


domingo, 3 de maio de 2009

Negar o holocausto de judeus não seria o mesmo que negar o massacre de palestinos?

Israel nega a existência do massacre em Gaza, e outros mais, mas a imprensa do mundo não árabe e não muçulmano, omite.

Israel tem um governo que não reconhece o estado da Palestina, mas essa imprensa se cala.

Essa mesma imprensa difunde enormemente e desqualifica o fato de o presidente Ahmadinejad, do Irã, não reconhecer o estado de Israel.

A imprensa não árabe e não muçulmana, nutre e alimenta o preconceito e o ódio contra o povo árabe no seio das populações não árabes e não muçulmanas.

Negar que Israel esteja impondo um massacre sobre o povo palestino, não seria o mesmo que negar a veracidade do holocausto do povo judeu? Negar a existência do Estado palestino, não seria o mesmo que negar a existência do povo judeu?

Nossa imprensa favorece o governo israelense ao dar conotação religiosa ao massacre promovido por Israel sobre o povo palestino, ao fazer supor que se justificam os genocidas bombardeios de Israel sobre o povo palestino, fazendo parecer que Israel esteja apenas se defendendo dos ínfimos ataques de uma pequena quantidade de morteiros do Hamas, ao chamar de guerra ao que na verdade é um massacre - uma guerra só pode ser assim chamada, quando os dois lados em litígio têm a mesma capacidade bélica, o que não se verifica nesse caso. Israel ataca com bombardeios aéreos e terrestres, enquanto os palestinos resistem com pedras.

A imprensa não árabe e não muçulmana comete um crime tão odioso quanto do próprio governo israelense ao passar a impressão a quem a assiste ou lê, de que o único lado errado no conflito são os palestinos, ao tratar o bandido (Israel) como "mocinho" e a verdadeira vítima (os palestinos) como bandidos.

A verdadeira história, a imprensa não árabe e não muçulmana não conta. O fato de Israel, com seu terrorismo de estado e alto poder destrutivo de seu aparato bélico, provindo dos Estados Unidos, expulsar o povo palestino de suas casas e suas terras, de assassinar friamente a qualquer palestino que não consiga fugir, inclusive, crianças, mulheres, idosos e portadores de necessidades especiais, num massacre pela conquista do território palestino, pelas riquezas em gás e petróleo do seu subsolo.

Por tudo isso, devemos abominar a nossa imprensa, nossos governos e a todos que, na baixeza de sua ganância e arrogância, ímpõem a nakba - a catástrofe do povo palestino. Essa é a verdade.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Exército mata palestino palmeirense indefeso




Por acaso o uniforme do Hamás mudou? Porque o governo de Israel afirma que seu exército só atira no Hamás. Que eu saiba, Palemiras e Hamás não tem ligação nenhuma.
Como será que eles vão justificar esse absurdo. Será que o soldado vai dizer que torcia pra outro time? Mais uma cena horrível de covardia que demonstra claramente o caráter de Israel.
O Datena demonstra tristeza no tom da vóz, mas diz que não sabe quem está certo no conflito. Será que é o atirador? O Datena torce para o mesmo time que ele?

quarta-feira, 18 de março de 2009

DAM - RAP PALESTINO (legendado)



Videoclipe do grupo de rap palestino DAM, que quer dizer: eternidade (em árabe), e também: sangue (em hebreu). São também as iniciais de: Da Arabian MC's. Formado pelos irmãos Tamer Nafar e Suhell Nafar, mais Mahmoud Jreri. O DAM é o primeiro grupo de rap da Palestina. Combinando ritmos árabes, melodias do Oriente Médio e influências do hip hop urbano, eles se reuniram em 1998, já lançaram três álbuns: Stop Selling Drugs (1998), Who's the Terrorist? (2001) e Dedication (2006). Todos os três integrantes nasceram e cresceram em bairros pobres de Lod, cidade essa que misturam árabes e judeus, a 20 km de Jerusalém. Exprimindo-se em árabe e hebreu, por vezes também em inglês, o grupo aborda temas influenciados pelo contínuo conflito entre israelitas e palestinos, bem como também a luta pela liberdade e igualdade dos palestinos, além de chamar a atenção também de temas controversos como o terrorismo, as drogas e os direitos das mulheres. Musicalmente suas inspirações são: (Nas, 2Pac, Mos Def, IAM, NTM, Saian Supa Crew, MBS, etc) e da música árabe: (Marcel Khalifa, Kazem Saher, George Wassouf, Majda al Romi, etc). Mais próximos das audiências palestinas, o DAM espera alargar a sua mensagem aos israelitas, abordando de forma fria e desencantada os dramas da convivência entre israelitas e palestinos. VÍDEO LEGENDADO EM PORTUGUÊS Site: http://www.dampalestine.com Myspace: http://www.myspace.com/damrap

sexta-feira, 13 de março de 2009

Liberdade Já para Cesare Battisti! Não à Extradição!


Manifesto Pela Liberdade Já Para Cesar Battisti - Não à Extradição!
Por Vários abaixo-assinados



Carta de solidariedade ao militante político, poeta e escritor Cesare Battisti.

Manifestamos a nossa solidariedade ao militante político, poeta e escritor CESARE BATTISTI, preso pela Polícia Federal em 18 de março do ano em curso no Rio de Janeiro.

A sua prisão fere todos os preceitos jurídicos que norteiam o espírito de Estado democrático de direito e os ideais dos direitos fundamentais e humanos, elementos constitutivos da preservação da vida e da dignidade humana.

CESARE BATTISTI é militante de esquerda e participou ativamente dos embates políticos e ideológicos no contexto de guerra fria que permeava o mundo bipolar dos anos 70.

Expressamos o nosso apoio ao Cesare Battisti, por compreendermos que a sua prisão foi um ato meramente político com intuito de satisfazer aos interesses eleitorais da extrema-direita na França e Itália.
A condenação de Cesare Battisti, pelo suposto crime comum, feriu todos os princípios constitucionais que norteiam os Estados Modernos, de dar ao acusado o direito de sua ampla defesa.

Cesare Battisti foi condenado à revelia no seu país, num procedimento jurídico questionado e rejeitado pela Corte Européia de Direitos Humanos. Ressaltamos que a suspeita que lhe é recaída é inconsistente do ponto de vista jurídico, principalmente decorrente dos anos 70, num tempo onde o mundo foi marcado pelo acirrado conflito ideológico.

Pedimos a devida acuidade por parte do governo brasileiro e do Judiciário em não aceitar a versão e pressão do governo italiano, da falsa alegação de que se trata de um crime comum.

As evidências históricas e, principalmente a atual composição política e ideológica do governo Italiano reforça o nosso sentimento de que se trata de uma medida eivada de revanchismo e autoritarismo, dos velhos e conhecidos artifícios midiáticos da extrema-direita européia que tenta convencer a opinião pública internacional de que se trata de um crime de terrorismo.

Por fim, entendemos que o nosso espírito de solidariedade é justo e encontra ressonância e total amparo político e jurídico na nossa Carta Magna que de forma imperativa, declara no inciso LII do artigo 5º da Constituição Brasileira, a não extradição de estrangeiro domiciliado em nosso território, por questão política e ideológica em seu país de origem.




ASSINAM:

Movimento Liberdade para Battisti, não à extradição - Ceará

Grupo Tortura Nunca Mais Rio de Janeiro
Comitê pela Libertação de Cesare Battisti - SCS - Quadra 01 Bloco L Ed. Márcia - sala 210 - CEP: 70.307-900 - Brasília-DF - Fone: 55-61-33220249

Comitê pela Libertação de Cesare Battisti - Guarulhos-SP - Rua Nossa Mãe dos Homens, 66 - Centro - Fone; 64750203

Comitê dos Teólogos Progressistas pela Libertação de Cesare Battisti - Ed. Alfa Mix - sala 116 - Quadra 201 - Águas Claras - DF

Maria Luiza Fontenele Fundadora do Movimento Feminino pela Anistia - Ceará, ex-Deputada Federal e ex-prefeita de Fortaleza.

Terezinha Zerbini - Fundadora do Movimento Feminino Pela Anistia - Brasil

Rosa Maria Ferreira da Fonsêca - Ex-presa política, fundadora do Movimento Feminino Pela Anistia, ex-vereadora de Fortaleza

Messias Pontes - Ex-preso político, jornalista, Presidente do Comitê de Imprensa da Assembléia Legislativa do Ceará.

João Ricardo Franco Vieira - Presidente da Comissão de D. Humanos da OAB - Ceará

Rildson Martins - Prof. Universitário e Advogado, Vice-Diretor do Centro de Ciências Jurídicas da UVA

Dalton Rosado - Advogado, co-fundador do Centro de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana da Arquidiocese de Fortaleza

Tarcísio Leitão - Advogado, ex-preso político, dirigente do PCB

Ivaldo Ananias Machado da Paixão - PDT.

Jaime - PCML.

Padre Haroldo Coelho - Movimento de Solidariedade Latino-Americana

Olga Nunes, Cecília Cruz e Maria Eliane G.B lima - Associação da Amizade Brasil/Cuba

Dilmar Santos de Miranda - Prof. Universitário da UFC

União das Mulheres Cearenses / Grupo Crítica Radical / Associação Anistia 64/68 / Associação da Amizade Brasil/Cuba / Partido Democrático Trabalhista PDT

Battisti: de dissidente a bode expiatório





Battisti: de dissidente a bode expiatório
18 de Fevereiro de 2009

É urgente, antes de se proceder a um julgamento apressado, estudar os fatos. Cesare Battisti de fato é um perseguido político, e este artigo conta sua história, que os meios de comunicação fazem questão de esconder.

Publicado no Jornal Passa Palavra
http://passapalavra.info/

Mais informações sobre Cesare Battisti:
www.criticaradical.org
www.cesarelivre.org

Essa é a primeira parte (de quatro) do artigo sobre o escritor italiano e refugiado político Cesare Battisti. Aqui apresentamos os anos 70 na Itália até o início da sua fuga.

Introdução


“Cesare Battisti é um perseguido político?”. Essa simples pergunta é objeto de debate inesgotável entre diferentes atores: o governo italiano, o governo francês (com Mitterrand e posteriormente com Sarkozy), o governo brasileiro e os comitês de solidariedade (no Brasil e França), entre outros. Essa discordância tem em seu cerne a análise ou o ponto de vista destes sobre os movimentos dos anos 70 na Itália e o seu desenrolar que perdura até hoje, uma vez que não houve processo de anistia. Para o governo italiano, aquelas pessoas que se uniram em manifestações, nas ocupações das universidades, nas organizações e mobilizações feministas, e se recusaram a se alinhar a um ou outro pólo de poder constituídos da época, isto é, a burocracia do Partido Comunista Italiano (PCI) e a democracia capitalista, não passaram de subversivos e, no caso dos grupos armados, de terroristas. Essa categoria — de profundo conteúdo ideológico — permitiu que a Justiça italiana criminalizasse em massa os movimentos e lutas sociais. Aos dissidentes restou aceitar a história reescrita pelo governo, o que lhes garantia o status de “arrependido” e uma pena reduzida.
Battisti jamais foi um “arrependido”, não só no significado jurídico que carrega o termo, como também na dimensão política, pois, apesar da renúncia às armas, ele nunca deixou de dizer o que ocorreu durante os anos 70 na Itália, isto é, a partir da perspectiva de quem estava na dissidência e não no poder, a qual questionou as estruturas e posições do poder, abrindo espaço à imaginação de formas mais justas e igualitárias de sociedade. É por essa razão que a Itália está disposta a calá-lo. Primeiro Chirac (em 2004), o qual o pagamento foi o consórcio do trem em troca da Doutrina Mitterrand que garantia abrigo a diversos italianos envolvidos nos movimentos dos anos 70. E, agora, a intensa pressão ao governo brasileiro para se “reavaliar” o caso Battisti.
Para uma leitura atenta, esse artigo estará dividido em quatro partes. A primeira, “A Itália daquele tempo e o exílio”, é uma explanação sobre o contexto italiano dos anos 70 e uma noção geral sobre a geografia política italiana. Na segunda parte, passamos a nos focar em Cesare Battisti e sua trajetória de vida, por isso, nomeamos essa de “O Sujeito”. A terceira parte, “Espaços de reação”, analisa a reação contra o refúgio dado pelo Ministro Tarso Genro, no início desse ano. E, por fim, a quarta parte contém uma breve conclusão e uma seleção de citações em apoio.

1- A Itália daquele tempo e o exílio
O levante de Maio de 1968, na próspera economia capitalista francesa foi a “tomada do céu de assalto”. Numa década extremamente entediante, as idéias de emancipação social tornaram não só influentes, como, de fato, perigosas por não caberem dentro da reivindicação político-partidária, a qual está submetida a democracia representativa. Apesar do papel importante dos estudantes, esse evento foi marcado pela maior greve geral dos trabalhadores e pela efetiva aliança entre trabalhadores e estudantes. Fora uma ruptura com o imaginário radical da época, entre os diversos grupos, podemos destacar o “Socialismo ou Barbárie”, grupo que destoava do marxismo ortodoxo do Partido Comunista Francês e dava ênfase nas lutas dos trabalhadores além das fábricas.

Manifestação Feminista na Itália, anos 70
Na Itália, as lutas sociais se desenvolveram ao longo dos anos 70, os quais foram marcados pela força política da esquerda extra-parlamentar, isto é, a efervescência das manifestações de ruas, das ocupações, das rádios livres, dos squats (ocupas e centros sociais) e, por fim, da luta armada e da via insurrecional. Esse campo político — revolucionário, contra o reformismo do PCI — foi denominado Autonomia Operária. Esse movimento possuía elaboração teórica na releitura de O Capital, focando o papel da luta de classes – “operarismo italiano” – e tinha em sua composição o acúmulo de lutas das organizações operárias e estudantis de anos anteriores, sendo a primeira responsável pela influência marxista-leninista e a segunda anarquista libertária.
Uma das práticas da Autonomia Operária eram as “reapropriações revolucionárias” — assaltos a bancos e outros estabelecimentos para o financiamento da luta. Mas, até então, a luta armada não havia sido deflagrada. Ela ocorre em resposta a “estratégia de tensão” aplicada pelo governo italiano, período que é descrito por Battisti, em seu livro “Minha Fuga sem Fim” (Martins Fontes, 2007): “Juntaram-se às hordas de contestatários, jovens miseráveis do campo recém-chegados às cidades e jovens burgueses rompendo com sua própria classe. Desse tríplice encontro iria surgir a onda de violência política que submergia a Itália, e o círculo vicioso das respostas do Estado, da CIA, do Partido Comunista, da extrema esquerda, da extrema direita, das organizações mafiosas. É a anomalia italiana. Bombas lançadas sobre os manifestantes, exército nas ruas, tiros à queima-roupa, organizações secretas, golpes de Estado fracassados, atentados, execuções sumárias.” Tudo isso se desenvolve num cenário incomum: o Partido Comunista Italiano (PCI) partilhava o poder com a Democracia Cristã (PDC), partido de centro-direita. Foi o “Compromisso Histórico”, documento onde o PCI assume o reformismo e a partilha de poder, que teve como resposta a deserção em massa do PCI para as fileiras da Autonomia Operária.
Battisti integra os PAC — Proletários Armados para o Comunismo — depois de cumprir pena por dois anos pelas reapropriações e não reencontrar os antigos companheiros da casa ocupada (squat). Diferente dos outros grupos, os PAC possuem um referencial teórico nos autores franceses (Foucault, Deleuze, Baudrillard e Sartre) e, em contraposição ao rigor do centralismo democrático dos partidos, sua organização era pautada no princípio da identidade múltipla: a sigla poderia ser usada por qualquer pessoa para reivindicar uma ação. É nesse grupo que Cesare conhece Pietro Mutti, o líder dos PAC.

Anos de Chumbo: manifestantes recorrem ao uso de armas para se defender da violência estatal.
Após a execução de Aldo Moro, em Maio de 78, pelas Brigadas Vermelhas (grupo de alinhamento marxista-leninista), a posição defendida pelos PAC passa a ser: “Sim à defesa armada, não aos atentados que acarretassem morte humana”. A saída de Battisti do grupo é marcada quando um núcleo dos PAC reivindica publicamente a morte do comandante da prisão, Antonio Santoro (Junho de 1978). Esse é o momento do adeus às armas. A partir desse evento, Cesare passa a viver num apartamento com outros que abandonaram a via armada. No entanto, a sigla PAC continua a existir até 1979 e somente depois de três homicídios e diversas ações ela é abandonada.
Em Junho de 1979, todos do apartamento são detidos numa operação no norte da Itália e encaminhados para as prisões especiais acusados de subversão e pertencimento ao grupo armado. Porém, “Nem uma única vez, durante os interrogatórios que se seguiram, e durante o processo de 1981, a polícia ou os juízes cogitam sua participação nas quatro ações homicidas dos PAC. Seu nome, aliás, nunca apareceu nas investigações conduzidas após cada um dos atentados.” (Fred Vargas, posfácio “Minha Fuga Sem Fim”)
Ainda sobre o processo jurídico, nessa época, a Itália criou a delação premiada, na qual “os famosos ‘arrependidos’ eram acusados que negociavam sua pena em troca de denúncias, em acordo com a magistratura desejosa de liquidar seus milhares de dossiês mediante todos os meios e de apontar culpados, verdadeiros ou falsos. (…) Quanto mais nomes os arrependidos forneciam, mais chances eles tinham de conseguir liberdade. Num sistema assim, imagina-se facilmente a montanha de mentiras que os arrependidos tentavam inventar, às vezes tão pouco plausíveis que os próprios juízes tinham de lhe chamar a atenção.” (Cesare Battisti, “Minha fuga sem fim“)
É depois dos casos de torturas, da negação de comunicação sobre a morte de seu irmão Giorgio num acidente de trabalho e da intensa repressão em 1980 que Cesare Battisti decide fugir da prisão. Em Outubro de 1981, um grupo de militantes foge do presídio com apoio dos COLP (Comunistas Organizados pela Libertação Proletária) — formado por alguns membros dos PAC e liderado por Pietro Mutti — e até o final daquele ano, centenas de dissidentes estavam em território francês, pois até 2004 vigorou a Doutrina Mitterrand, a qual impedia a extradição por crimes políticos. Este é o início de sua fuga sem fim.


2- O Sujeito

O ativista, escritor romancista, pai de família e, atualmente, refugiado, Cesare Battisti nasceu em 18 de dezembro de 1954 em Sermoneta, pequeno vilarejo ao sul de Roma. Sua família alimentava simpatia pela esquerda, passando pelo avô (que festejou a fundação do PCI), o pai (que sempre demonstrou publicamente sua posição de esquerda) e os irmãos (sindicalistas ou militantes do PCI). Já a mãe, Maria, com a cabeça coberta por um véu preto, temia a Deus e as curas. Resultado: na casa onde moravam o casal e os seis filhos (quatro homens e duas mulheres) havia um retrato de Stálin na sala de jantar, que o caçula Cesare, na infância, imaginava ser a efígie de um santo católico.
Seu irmão mais velho, Giórgio, era militante comunista e atuava em sindicatos. E, quando menino, Cesare Battisti acompanhava as atividades de militância do irmão. Participou, ainda muito novo, da juventude do Partido Comunista Italiano e também das agitações estudantis de 1968. Afastou-se do PCI pouco tempo depois pra aderir – durante a adolescência – à organização Lotta Continua (LC), que está nos primórdios do movimento autonomista italiano. Após sair do LC e se aproximar de alguns squats da época, adere à Autonomia Operária. É após a prisão que Cesare adere aos PAC, em 1977.
Passado o período de participação e ruptura com as idéias de luta armada dos PAC, Cesare foge da Itália. Primeiramente, atravessa os Alpes a pé chegando em Paris e, depois de um ano, parte para o México juntamente com Laurence, companheira com quem teve uma filha (Valentinne) e constituiu uma família.
Em território mexicano trabalhou em diversos ofícios (desde mergulhador submarino até cozinheiro) buscando formas de sustento. Foi nessa época que iniciou sua carreira de escritor: elaborou romances policiais que, em suas narrativas violentas e sombrias, reconstituíam a realidade dos Anos de Chumbo italiano que enfrentou. Como afirma em carta enviada desde a prisão brasileira: “Após minha fuga da Itália, a minha militância deu-se como escritos, usando o espaço que me deram as editoras francesas e italianas para críticas à época política italiana dos anos de chumbo.”
Cesare fundou, em 1986, a revista cultural Via Libre. Publicou 17 livros e escreveu inúmeros outros artigos, constituindo sua carreira de escritor e romancista policial. Por isso estranha a ele e a muitos outros ser chamado repetidamente de terrorista, quando seus principais e mais dedicados instrumentos são seus escritos literários.
Passados oito anos, Cesare volta pra França — restabelecendo seus laços — no período da doutrina Mitterrand, a qual ofereceu asilo/refúgio político para todos os militantes perseguidos que renunciaram à luta armada — com a qual já havia rompido muitos anos antes, ainda na Itália.
Neste momento ele participa em causas humanitárias do país. Jornais alternativos, associações de refugiados políticos (tendo inclusive papel ativo na defesa da doutrina Mitterrand), trabalhos voluntários na periferia e bairros pobres, oficinas de literatura e artes, participação em palestras, seminários e eventos políticos locais. Isso talvez explique o tamanho do movimento em seu favor quando da sua prisão em 2004. Na ocasião, milhares de pessoas tomaram as ruas em sua defesa, sabendo da perseguição política que sofria.
O movimento francês pela sua não extradição, apesar das vitórias iniciais, acabou derrotado. Duas hipóteses são trabalhadas neste caso: a primeira diz que depois do fim de sua detenção houve certo relaxamento em ritmo de “ganhamos”, sendo que a imprensa e a embaixada italiana não pouparam esforços em fabricar uma imagem de um criminoso sanguinário. Como afirma Fred Vargas, “Battisti virou aos olhos da imprensa primeiro um estrangeiro, depois um terrorista, depois um assassino, depois um monstro.” Em segundo lugar, acordos econômicos de grande ordem foram fechados entre Sarkozy e Berlusconi em troca do fim da Doutrina Mitterrand. Em sua nota em apoio a Cesare, o Movimento Passe Livre (MPL) tripudia esta jogatina econômica afirmando que “Há, ainda, uma ironia. Na época que a Itália pediu a extradição de Cesare à França, foi divulgado pela imprensa que os dois governos fizeram uma negociação: França negociou a vida de Cesare com a Itália, em um acordo político-econômico que envolvia um trem Bala. Mais um jogo sujo dos donos do transporte, dessa vez trocando a vida de um homem por alguns milhões! Nós, que por aqui lutamos por um transporte justo, não podemos deixar de protestar contra essa máfia que, no mundo inteiro, restringe nosso direito fundamental de ir e vir e, nesse caso, condena mais um lutador às grades.”
Quando veio ao Brasil, Cesare manteve sua atividade de escritor, sendo sua primeira obra em português, a autobiografia “Minha Fuga Sem fim”, publicada quase concomitantemente à sua prisão. Um segundo livro, já pronto e a espera de edição, foi apreendido em seu computador pela Polícia Federal, e espera-se que assim que solto possa ser publicado. Manteve, mesmo que de maneira escassa – dada sua perseguição – contatos frequentes com a família e amigos que, aliás, visitam-no no Brasil. A renomada romancista francesa Fred Vargas destaca-se na França como uma das articuladoras de sua causa junto à comunidade internacional.
O escritor conta também com um comitê de solidariedade com membros de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza, que acompanha o caso, realiza visitas periódicas na prisão, mantém o site Cesarelivre.org e realiza outras diversas mobilizações pautando a esquerda e a imprensa alternativa. A campanha por sua libertação possui inúmeras análises, textos, abaixo assinados e carta-manifestos de intelectuais e pessoas públicas — como o cineasta Silvio Tendler, os jornalistas Rui Martins, Celso Lungaretti e Laerte Braga, e o jurista Dalmo Dallari — que apresentam, ponto a ponto, os motivos da necessidade da condição de refugiado. Completam também a campanha, parlamentares — em especial Eduardo Suplicy (PT) e José Nery (PSOL) — que intervém desde sua função em favor de Battisti.
Todavia, resta analisar quais os reais motivos que levaram este italiano foragido a ser assunto de tamanha evidência pública, política, midiática e diplomática. Por que outros casos de concessão de refúgio político — tanto da direita como da esquerda — não causaram tanta comoção, surpresa, reações exacerbadas e ameaças? Qual o peso que leva um acusado, sob condições evidentemente questionáveis — como já afirmamos — de execução de 3 assassinatos e planejamento de mais um, ser um dos principais casos da justiça internacional nessa década? Por fim, o que motiva tanto empenho na perseguição jurídica e política a um homem que supostamente assassinou um açougueiro? (Dado que as elites não costumam importar-se com a morte de “pessoas comuns”).
Como já colocado acima, o escritor alega — com base em argumentos críveis — que não é autor dos assassinatos dos quais é acusado. Mais ainda, Cesare não era do núcleo de decisões do grupo que cometeu estes crimes — dada sua idade, o pouco tempo presente na organização, por exemplo — de modo que não foi o agente fundamental do grupo, como a imprensa gosta de inventar. Suas detenções na Itália ocorriam em períodos de perseguição generalizada aos dissidentes, logo sua detenção não foi provocada por ele ser um mentor ou líder, ao contrário de Pietro Mutti. Quando fugiu da Itália, em 1981, pesavam sobre ele somente as acusações de porte ilegal de armas, associação subversiva e formação de quadrilha.
Cesare só começa a ter alguma visibilidade e destaque pessoal quando já estava foragido da Itália, numa conjunção de fatores: foi escolhido por seu antigo companheiro, Pietro Mutti, como bode expiatório dos crimes cometidos pelos PAC, tendo sobre si imputados todos os crimes da organização; tornou-se romancista e, com seus textos, apresentou ao público as inconvenientes ações arbitrárias e de terror cometidas pelo governo italiano da década de 70, fato que tanto remanescentes do PCI como de grupos da direita procuram esconder, acima de tudo; participou da vida política da França, tanto na defesa da Doutrina Mitterrand como nas críticas à ascendente direita francesa que, nas palavras de Nicolas Sarkozy, quer apagar a herança de 1968, afirmando que esta foi um grande erro. Concomitantemente, é alvo e símbolo desta disputa histórica sobre o que foi a “geração de 68”, seja na França e, principalmente, na Itália.
A disputa colocada nesse caso, então, não está nos supostos crimes cometidos ou na idéia de se fazer cumprir a lei, mas em tudo o que significa a punição ou liberdade de um membro da geração de 68. A luta não se trata, unicamente, de defender Cesare, mas de firmar qual versão da história recente faremos prevalecer: do PCI governista em aliança com a Democracia Cristã ou na dissidência e na oposição exilada. Trata-se, certamente, de uma disputa política que se insere em interesses de classe. Sua prisão na França não girou em torno de negociações econômicas de grande valor por mera coincidência; é evidência de que as posições no assunto possuem um fundo classista: seja da burguesia encarnada na direita, seja na classe burocrática instalada no PCI (e em boa parte dos que herdaram essa tradição após sua dissolução), ambas questionadas pela geração de 68.
Cesare, em entrevista concedida ao Centro de Mídia Independente, é enfático sobre esta questão: “O meu caso não pode ser analisado isoladamente. Temos que aproveitar esse caso para falar de tudo o que se conquistou em 68. Às vezes fica a impressão de que tudo o que foi conquistado foi dado pelos governos. Os governos não nos deram nada de presente, tudo o que se conquistou foi pago com a vida e com a morte. Quando se pensa em 68, logo se associam imagens de guerrilhas, terrorismo. A guerrilha foi uma pequena parte de tudo o que aconteceu. O movimento de 68 era um movimento de gente que queria viver, e não morrer. De Chumbo eram os anos deles. Os nossos eram os anos de amor”.


3- Espaços de reação
O Senador Eduardo Suplicy, em artigo publicado na revista Caros Amigos, chamado “Um fim para a fuga”, de Junho/08, afirma, em defesa de Cesare: “Nossa constituição estabelece que ninguém pode ser julgado sem direito à defesa, como ocorreu na condenação italiana, nem condenado à prisão perpétua, e muito menos permite a extradição em razão de crime político.”

O jurista Dalmo Dallari é apoiador de Battisti
O jurista Dalmo Dallari, no artigo “Extradição e direitos humanos”, de Maio/08, também defende a permanência de Cesare no Brasil: “E a Constituição brasileira estabelece, no artigo 5º, que não será concedida extradição de estrangeiro por crime político. Além disso tudo, que exige séria reflexão, a Constituição, em seu artigo 5º, inciso XLII, estabelece que “não haverá penas: a) de morte; b) de caráter perpétuo”.” (…) “Não seria aceitável deixar-se impune quem atentou contra o direito à vida, mas seria iníquo e injusto colaborar para a imposição de uma pena que, além de perpétua, criando um morto-vivo, seja baseada em arbitrariedades e falsidades, contrariando princípios e normas expressamente consagrados na Constituição brasileira.”
Porém, assim que o Ministro da Justiça brasileiro, Tarso Genro, concedeu refúgio à Cesare Battisti, sua situação, até então pouco noticiada – a não ser em veículos com vínculo direto à situação –, tornou-se um dos principais temas de debate político na imprensa nacional. Inúmeros editoriais na mídia corporativa escrita, matérias de longos minutos nas cadeias de TV, enquetes em sites na internet, inúmeros blogs comentando a situação, em polarização crescente de opiniões. Cesare Battisti passou de um ilustre desconhecido a uma figura odiada por uns e solidarizado por outros.
Este comportamento poderia ser completamente explicável como pauta corrente, não fosse o fato de que boa parte dos meios de comunicação tem orientado claramente sua linha editorial em posição favorável à extradição de Cesare. O jornalista Celso Lungaretti, em um artigo, chega a comparar a imprensa Brasileira à “Quinta Coluna”, expressão do exército em guerra. A quinta coluna seria a responsável por se infiltrar no terreno inimigo e instigar as posições do exército invasor, colaborando com sua futura entrada no território inimigo. O fato de o presidente italiano enviar sua carta endereçada a Lula primeiramente à imprensa (alinhada à posição italiana) antes dela chegar ao presidente corrobora com esta opinião. E, reparando com atenção nas coberturas, observa-se que todas as posições contrárias a Cesare são vinculadas nas reportagens, quando suas defesas são pouquíssimo visibilizadas.
Posição igual, mas de matriz diferente tem a revista Carta Capital, dirigida pelo Ítalo-Brasileiro Mino Carta. A revista, que também tem posição alinhada aos detratores de Battisti, fez constante cobertura favorável à extradição, vinculando a imagem de Cesare à de um criminoso comum e dissociando-o de seu passado militante/ativista. Esta posição causou afastamento no Brasil de muitas pessoas inicialmente envolvidas com a campanha.

O ítalo-brasileiro Mino Carta
Explica-se porém a posição de Mino Carta remetendo-se ao já citado “Compromisso Histórico” do PCI/Democracia Cristã e seus seguidores. “O editor da Carta Capital, o ítalo-brasileiro Mino Carta, embora nunca tenha se filiado ao Partido Comunista Italiano, foi seu simpatizante declarado. Os conflitos e lutas sociais nos anos 70 na Itália, nos quais Cesare Battisti estava inserido, foram antes de tudo um conflito em que de um lado estavam organizações e movimentos extra-institucionais, extra-parlamentares, e de outro organismos institucionais, como os partidos políticos. Na segunda metade dos anos 70, o PCI celebrou o chamado Compromisso Histórico, com o qual teria uma participação no governo da Democracia Cristão. E o papel do PCI foi, antes de tudo, o de (tentar) controlar o conflito e os movimentos sociais. O PCI e a Democracia Cristã estavam no mesmo lado, enquanto grupos comunistas extra-parlamentares como o que Cesare Battisti participou, estavam em antagonismo a eles. A ferrenha caça às bruxas, com a derrota dos movimentos autônomos na Itália, foi obra tanto do PCI quanto da Democracia Cristã.
O que vemos na posição condenatória, reacionária e até desumana, da desinformação reproduzida incessantemente na Carta Capital e pelos seus principais articulistas não é mais do que a continuidade, no tempo e no espaço, do Compromisso Histórico italiano dos anos 70 entre o PCI e a direita.”
Também cabe analisarmos a reação do próprio Estado italiano, em todos seus aspectos: com partidos conservadores propondo retaliações diplomáticas, econômicas e políticas ao Brasil; presidente, relações exteriores, primeiro-ministro e chanceler italiano questionando por diversos meios a decisão brasileira e sugerindo que esta foi uma afronta ao Estado italiano; partidos de centro-esquerda (herdeiros do PCI) depreciando o refúgio brasileiro e sugerindo que a decisão baseou-se em desconhecimento; por fim, ativistas de organizações reacionárias fazendo manifestações na Itália em contrariedade a Battisti.
O jurista Dalmo Dallari é categórico sobre uma das comprovações tácitas desta reação: “O governo italiano acatou civilizadamente a decisão francesa de não extraditar Marina Petrella, reconhecendo tratar-se de um ato de soberania. Qual o motivo da diferença de reações? O governo e o povo do Brasil não merecem o mesmo respeito que os franceses? Essa diferença de comportamento dos ministros italianos deixa mais do que evidente que é plenamente justificado o temor de Battisti de sofrer perseguição por motivo político. A reação raivosa dos ministros italianos não dignifica a Itália e elimina qualquer dúvida.”

Itália, Julho/08 - Manifestação pela liberdade de Marina Petrella
Podemos tirar algumas conclusões desta forma diferenciada de tratar a decisão brasileira – já que foi respeitado o recente refúgio francês a Marina Petrella. Um resquício colonial, dado que um Estado de passado colonial tomou uma posição questionadora a um Estado de origem colonialista. É também um questionamento da própria Justiça italiana, dado que o refúgio afirma claramente que houve arbitrariedades no julgamento — à revelia e com base em provas de caráter duvidoso. Ainda, trata-se do reconhecimento de que a esquerda institucional italiana tem, em seu passado, ações repressivas e autoritárias destinadas à esquerda autonomista e/ou extraparlamentar. E, por fim, é o reconhecimento de que Battisti não é o monstro criado por meio de delações premiadas, matérias sensacionalistas, propagandas de Estado. É a derrota da “caça às bruxas” italiana, inaugurada em uma aliança do PCI com a Democracia cristã e re-editada por Romano Prodi e Silvio Berlusconi.
Dallari, novamente, defende a constitucionalidade plena desta decisão. “A concessão do estatuto de refugiado a Cesare Battisti é um ato de soberania do Estado brasileiro e não ofende nenhum direito do Estado italiano nem implica desrespeito ao governo daquele país, não tendo cabimento pretender que as autoridades brasileiras decidam coagidas pelas ofensas e ameaças de autoridades italianas ou façam concessões que configurem uma indigna subserviência do Estado brasileiro.”
Esta decisão coloca em xeque também, claro, a idéia de que a Itália teve, na década de 70, uma democracia ampla, irrestrita e que respeitava os direitos humanos. Reconhece com isso que esta cometeu excessos na defesa de interesses econômicos emergentes e, para isso, torturou, matou, prendeu arbitrariamente, utilizou-se de meios paramilitares e reprimiu a dissidência, seja ela política, cultural ou intelectual. Michel Foucault, numa entrevista de 1980, referindo-se à prisão de Toni Negri e ao que ocorria na Itália, compara a vida nos países soviéticos com os supostos países democráticos: “É verdade, nós não vivemos sob um regime no qual os intelectuais são enviados para os campos de arroz. Mas você já ouviu falar de um Toni Negri? Ele não está na prisão apenas por ser um intelectual?”

Negri em Pádua em 1979
Em “De Volta” (2006), Antonio Negri apresenta uma importante consideração sobre o processo judiciário italiano: “Era preciso aceitar a Lei dizia-se, mesmo que a Lei fosse injusta, pois era a única possibilidade de se defender. Como se fosse possível! Fui condenado a trinta anos de prisão com base em denúncias delirantes feitas por “arrependidos”. Eu mal havia partido da Itália, e tinha esperado preso durante quatro anos por um processo que não começava. Bastou que eu não estivesse mais lá que o processo começou. Bastou que alguns “arrependidos” me acusassem de tudo e de coisa nenhuma: eles queriam sair da prisão, eu estava foragido – nenhuma defesa possível. (…) Na Itália, a crise e o fim dos movimentos revolucionários dos anos 70 e início dos 80, determinaram uma espécie de generalização da delação e do arrependimento – a delação e o arrependimento como instrumentos de salvaguarda pessoal e jurídica impostos pelo poder. Foram aprovadas certas leis: falar era o mesmo que sair da prisão. (…) O resultado é, mais uma vez, que indivíduos que assassinaram dezenas de pessoas estão em liberdade, e que outros que não mataram ninguém continuam na prisão. É um sistema perverso, os efeitos são inimagináveis. (…) Como já disse, a esquerda entrou no sistema de justiça através da luta contra o terrorismo. Foi ela que levou adiante o empreendimento da repressão política no fim dos anos 70.” (Antonio Negri, em entrevista publicada no livro intitulado “De Volta”, Record, 2006).
O próprio ex-presidente italiano Francesco Cossiga, em carta enviada a Battisti afirma que “Como instrumento de luta psicológica, conseguimos, a Democracia Cristã e o Partido Comunista Italiano, que conduziram o entendimento com as organizações sindicais e com a grande imprensa e a televisão pública, fazer passar os subversivos de esquerda e os eversores de direita como simples terroristas e talvez absolutamente como “criminosos comuns”. (…) “Os crimes que a subversão de esquerda e a subversão de direita cumpriram, são certamente crimes, mas não certamente “crimes comuns”, porém “crimes políticos”.”

Distrito Federal, Brasília - Manifestação em 2008, pró-Cesare.
Da mesma forma, Battisti assinala que os tribunais da época eram constituídos por membros do PCI que “teorizam e aplicaram uma repressão terrível, em acordo com o governo dirigido pela Democracia Cristã. A implicação dos comunistas nos impressionantes desvios jurídicos dos anos de chumbo permite compreender por que a ‘centro-esquerda’ italiana, oriunda diretamente do antigo PCI, é hoje um dos partidos mais encarniçados contra os antigos refugiados.” (Cesare Battisti, Minha Fuga Sem Fim, p. 54).




4- Conclusão
Ao concluir o artigo, vale citar a participação curiosa do Supremo Tribunal Federal no caso: após o refúgio concedido por Tarso Genro, percebe-se a movimentação por parte do Presidente do STF Gilmar Mendes para que Cesare continue preso e, mais, que seu refúgio seja anulado. As conseqüências dessas ações do STF ainda não podem ser previstas, mas correm o perigo de gerar uma crise entre os poderes.
O “Caso Battisti”, como vem sendo divulgado, deve se estender ainda por mais tempo. Manobras do governo italiano, articulações junto ao judiciário, ataques caluniosos pela mídia e até mesmo atentados revanchistas estão no calendário de possíveis casos futuros. Cesare, em recente entrevista à revista Istoé, permanece questionando a dimensão do caso. “Eu, sinceramente, não acredito que tudo isso esteja acontecendo. É enorme, é exagerado. Eu não sou essa pessoa tão importante. Sou um dos milhares de militantes italianos dos anos 1970. Sou um das centenas de militantes que se refugiaram no mundo inteiro, fugindo dos anos de chumbo da Itália. Por que tudo isso comigo?”
Por fim, após 40 anos de 1968 e 30 de seu desligamento dos PAC, o Brasil avista-se como o fim da fuga de C.B. A história de sua geração, porém, ainda tem muito a se desenvolver: se lutaram contra a aproximação entre direita e esquerda (institucional), estão a rever esta mesma aliança colocando-se contra os militantes daquele período. Mais que uma disputa anacrônica sobre problemas do passado, o desenrolar dos fatos apresentará que herança reivindicaremos ao nosso futuro: a da imaginação ao poder ou a do poder disciplinar. Já experimentamos a segunda à exaustão, com resultados catastróficos. Daremos à primeira alguma chance?

Posicionamentos públicos em favor de Cesare Battisti
“Na questão do expatriamento ou não de Cesare Battisti cada um de nós pode ser contra ou a favor, mas a decência deveria impedir que se usasse como argumento denegrir nossa Justiça, e se lançar uma nova teoria jurídica – a do entreguismo do Judiciário. Depois da privatização de nossas empresas no governo FHC, cedidas a multinacionais estrangeiras, querem agora nos forçar a adotar, como se fôssemos um subserviente país do quarto mundo, as normas decididas pela Itália ou pela União Européia?” (Rui Martins)
Notas informativas sobre o “Caso Battisti”
→ A condenação à prisão perpétua de Cesare Battisti, na Itália, priva-o de contato com a luz solar. Por questão de reciprocidade, Cesare não pode ser extraditado do Brasil para cumprir prisão perpétua ou pena sem luz solar (pois essas penas não existem no Brasil).
→ Quando da prisão de Battisti, uma carta enviada pela Itália ao governo Brasileiro pedia cumprimento rápido do processo e assegurava que as disposições legais brasileiras seriam cumpridas, em caso de extradição. Logo em seguida, o posicionamento público do então Ministro da Justiça, Clemente Mastella, comprova a pretensão da Itália em manter em prisão perpétua Battisti. A confirmação está na edição de 11/10/2007, do jornal eletrônico il Giornale.it. Nele, Mastella explica que sua afirmação às autoridades brasileiras de que Battisti não seria penalizado com pena perpétua tratava-se, em verdade, de um estratagema para garantir a extradição do mesmo. A matéria noticia que o Ministro Italiano asseverou que Cesare não receberia nenhum benefício penitenciário.
→ A condenação de Battisti foi de efeito retroativo: “Uma legislação de exceção promulgada na Itália em 1981, a chamada Lei Cossiga, serviu para condenar o escritor e preso político Cesare Battisti por crimes ocorridos em 1978 e 1979, dos quais se declara inocente. “A Lei Cossiga retroage no tempo para me condenar à revelia, contrariando todas as doutrinas do direito democrático”, afirma Battisti.”
→ O Brasil tem, na democracia, tradição de conceder refúgio político a perseguidos de direita e de esquerda, como Olivério Medinna e Alfredo Stroessner. Em especial, quatro refúgios já foram concedidos no Brasil a italianos que participaram do mesmo período de lutas que Cesare, sendo inclusive da Frente Ampla Autonomia Operária. São eles Luciano Pessina, Achille Lollo, Pietro Mancini e Pasquale Valitutti.
→ Os cubanos que permaneceram no Brasil – abandonando a delegação cubana – após o PAN não foram deportados. Na realidade eles retornaram a Cuba porque assim quiseram, como confirma em depoimento Lara, um dos boxeadores: “Nós decidimos retornar, não foi pelo governo brasileiro nem por ninguém, já que as coisas deram errado, nós decidimos voltar”
→ Não consta em nenhum auto dos processo de Battisti, na Itália, que ele fosse liderança no grupo. Esta é uma invenção recente da mídia sobre sua pessoa. Quando da sua participação nos PAC Cesare era muito novo e muito recente na organização pra assumir qualquer posição de liderança.
→ O processo de Battisti tem pelo menos 3 falhas juríicas graves: “No âmbito do direito geral, o processo estava viciado de pelo menos três elementos: o recurso à tortura para estorcer confissão na fase de investigação, o uso de testemunhas menores de idade ou com distúrbios mentais, a multiplicação das imputações com base nas declarações de um arrependido de confiabilidade incerta, além de outros elementos menores.”
→ Era norma vigente nas organizações de extrema-esquerda da época que, caso um militante fosse delatar companheiros, que se centrasse nos que já não pertenciam à organização e estavam fora do país, para proteger os ainda ativos. Cesare Battisti, quando delatado por Pietro Mutti, estava exatamente fora dos PAC e fora da Itália.
“No Brasil não existe a prisão perpétua. Uma das condições para que Battisti possa ser extraditado será um compromisso do governo italiano para que o exilado não seja condenado a pena superior a 30 anos. Na prática prisão perpétua. Battisti tem 53 anos e sairia da cadeia com 83.” (Laerte Braga)
“A decisão do ministro Tarso Genro coincide no tempo com a decisão do presidente Obama de encerrar a prisão de Guantánamo e de suspender os julgamentos da ‘justiça de exceção’. São duas decisões convergentes dos governos de dois grandes países que assinalam ao mundo que a verdadeira segurança cidadã – um dos lemas do seu governo – reside no respeito do direito, dos direitos humanos e no aprofundamento da democracia. Todos os democratas do mundo estamos gratos por isso.” (Boaventura de Sousa Santos)
“(…)Nem me verão com espanto pela concessão de asilo ao italiano César Batistti, não só de acordo com a tradição brasileira como, também, pelo fato de ele ser acusado de crimes que nega e que já estariam prescritos no Brasil. Além do mais, tais crimes podem lhe ter sido imputados porque já estava fora do alcance da polícia de seu país, prática comum naqueles tempos.” (Juca Kfouri)
“Battisti era apenas o integrante de um desses 500 grupúsculos, sem nenhuma participação em episódios realmente marcantes. Só que, com seu êxito literário, deixou de ser um foragido anônimo e se tornou uma ameaça para quantos querem manter a sujeira do passado escondida sob os tapetes (“Estou passando por isso porque falei muito, escrevi e contei sobre os anos de chumbo. Isso na Itália é um buraco negro, não se sabe de nada. O país lida mal com seu passado. Eles não aceitaram um romancista escrevendo sobre aqueles anos”).” (Celso Lungaretti)
“Considerando que o governo brasileiro tem, em seus mais altos escalões, pessoas que durante o período de ditadura foram estigmatizadas e perseguidas como criminosos comuns; que hoje no Brasil se trava uma luta, inclusive dentro do próprio governo, pelo esclarecimento das mortes e desaparecimentos no período da ditadura e punição dos torturadores sendo que há setores do governo a favor e contra a extensão da Lei da Anistia aos torturadores. Na época, inclusive, notadamente depois do famigerado AI-5, milhares de brasileiros(as), foram forçados a se exilar para escapar da prisão, da tortura e da morte e com isso salvaram suas vidas em outros países.” - Moção pela liberdade com refúgio político para Cesare Battisti aprovada pela 11ª conferência Nacional dos Direitos Humanos, realizada de 15 a 18 de dezembro de 2008 em Brasília – DF
“Ao apoiar o ato soberano de concessão do citado refúgio político, esta CDHM reitera posicionamento expresso na moção de apoio aprovada em 03/09/2008 pela unanimidade de seu plenário, em defesa do refúgio político agora concedido num ato soberano, equilibrado e de caráter humanitário, sem dúvida o único no caso condizente com os princípios contidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos e no Direito Internacional Público.” Nota da CDHM (Comissão de Direitos Humanos e Minorias) da Câmara dos Deputados
“Diante de tantas contradições e de tantos fatos mal explicados, inclusive um asilo revogado na França (depois de um atuante trabalho de lobby italiano), fica a dúvida de por que interessa tanto ao governo italiano coroar Cesare Battisti como o bode expiatório de um período na Itália, onde não apenas a luta armada enevoou o país, mas as instituições se ajustaram a uma guerra contra o terror usando métodos pouco afeitos à ordem democrática. Talvez reconhecer erros no processo que levou à condenação de Battisti tenha o poder de expor a falta de legitimidade de ações policiais e judiciais desse período difícil da Itália.” (Maria Inês Nassif, jornalista do Valor Econômico)
“Esclareço a Vossa Excelência que a concessão da condição de refugiado ao senhor Battisti representa um ato de soberania do Estado brasileiro”. (Lula, presidente do Brasil, em carta enviada ao presidente italiano Giorgio Napolitano)
“Hoje estou cansado. Se volto para a Itália sei que vou morrer. Embora nunca tenha matado ninguém, me acusaram de ter matado policiais com base em um depoimento de um ‘arrependido’ por delação premiada, que jogou a culpa por muitos atos praticados por ele próprio em mim… Nunca pratiquei atos de violência contra quem quer que seja, e não há testemunha presencial que me acuse de tal prática.” (…) “Vim para o Brasil pois sabia do calor e do acolhimento que aqui receberia. Sabia também que o Brasil acolhe perseguidos políticos. Hoje tenho certeza que reúno condições de aqui trabalhar, de trazer minha família para perto, de estar ao lado de meus amigos que, mesmo vivendo do outro lado do Atlântico, nunca me deixaram só.” (Cesare Battisti)

terça-feira, 10 de março de 2009

Gilles Deleuze sobre a Palestina

"Israel inteira está envolvida num experimento. Inventaram um modelo de repressão que, devidamente adaptado, será usado em vários países".
Publicado originalmente no Le Monde (7/4/1978), mas bem atual!

Como os palestinos poderiam ser “parceiros legítimos” em conversações de paz, se não têm país? Mas como teriam país, se seu país lhes foi roubado? Os palestinos jamais tiveram escolha, além da rendição incondicional. Só lhes ofereceram a morte.
No conflito Israel-Palestina, as ações dos israelenses são consideradas retaliação legítima (mesmo que seus ataques sejam desproporcionais); e as ações dos palestinos são, sem exceção, tratadas como crimes terroristas. Um palestino morto jamais interessa tanto, nem tem o mesmo impacto, que um israelense morto.
Desde 1969, Israel bombardeia sem descanso o sul do Líbano. Israel já disse, claramente, que a recente invasão do Líbano não foi ato de retaliação pelo ataque terrorista em Telavive (11 terroristas contra 30 mil soldados); de fato, a invasão do Líbano é o ponto culminante de um plano, mais uma, numa sequência de operações a serem iniciadas como e quanto Israel decida iniciá-las. Para uma “solução final” para a questão palestina, Israel conta com a cumplicidade quase irrestrita de outros Estados (com diferentes nuances e diferentes restrições).
Um povo sem terra e sem Estado, como o palestino, é como uma espécie de leme, que dá a direção em que andará a paz de todos que se envolvam em suas questões. Se tivessem recebido auxílio econômico e militar, ainda assim teria sido em vão. Os palestinos sabem o que dizem, quando dizem que estão sós.
Os militantes palestinos têm dito que teriam conseguido arrancar, no Líbano, alguma espécie de vitória. No sul Líbano, só havia grupos de resistência, que se comportaram muito bem sob ataque. A invasão israelense, por sua vez, atacou cegamente refugiados palestino e agricultores libaneses, população pobre, que vive da terra. Já se confirmou que cidades foram arrasadas e que civis inocentes foram massacrados. Várias fontes informam que se usaram bombas de fragmentação.
Essa população do sul do Líbano, em exílio perpétuo, indo e vindo sob ataque militar dos israelenses, não vê diferença alguma entre os ataques de Israel e atos de terrorismo. Os últimos ataques tiraram 200 mil pessoas de suas casas. Agora, esses refugiados vagam pelas estradas.
O Estado de Israel está usando, no sul do Líbano, o método que já se provou tão eficaz na Galileia e em outros lugares, em 1948: Israel está “palestinizando” o sul do Líbano.
A maioria dos militantes palestinos nasceram dessa população de refugiados. E Israel pensa que derrotará esses militantes criando mais refugiados e, portanto, com certeza, criando mais terroristas. Não é por termos um relacionamento com o Líbano que dizemos: Israel está massacrando um país frágil e complexo. E há mais.
O conflito Israel-Palestina é um modelo que determinará como o ocidente enfrentará, doravante, os problemas do terrorismo, também na Europa.
A cooperação internacional entre vários Estados e a organização planetária dos procedimentos da polícia e dos bandidos necessariamente levará a um tipo de classificação que cada vez mais incluirá pessoas que serão consideradas “terroristas”. Aconteceu já na Guerra Civil espanhola, quando a Espanha serviu como laboratório experimental para um futuro ainda mais terrível que o passado do qual nascera.
Israel inteira está envolvida num experimento. Inventaram um modelo de repressão que, devidamente adaptado, será usado em vários países.
Há marcada continuidade nas políticas de Israel. Israel crê que as resoluções da ONU, que condenam Israel verbalmente, são autorizações para invadir. Israel converteu a resolução que o mandava sair dos territórios ocupados em direito de construir colônias!
Achou que seria excelente idéia manter uma força de paz no sul do Líbano… desde que essa força, em vez do exército israelense, transformasse a região em área militar, sob controle policial, um deserto em matéria de segurança.
Esse conflito é uma estranha espécie de chantagem, da qual o mundo jamais escapará, a menos que todos lutemos para que os palestinos sejam reconhecidos pelo que são: “parceiros genuínos” para conversações de paz. De fato, estão em guerra. Numa guerra que não escolheram.
Tradução a partir do inglês: Caia Fittipaldi.
fonte

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

SARAU PALESTINA LIVRE

COLETIVO TRINCA APRESENTA:

SARAU EM PRÓL DA CAUSA PALESTINA

ATRAÇÕES:

  • APRESENTAÇÃO MÚSICAL PALESTINA
  • VÍDEOS
  • DEPOIMENTO DOS REFUGIADOS
  • POESIAS
  • EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS DE JENNIFER BALCOMBE (FOTÓGRAFA INGLESA PRESENTE EM GAZA NOS DIAS DE CONFLITO!)
  • VENDA DE COMIDAS TÍPICAS (FALAFÉL)

  • ONDE?

Na Subsede da Apeoesp de Mogi das Cruzes.

Rua Hamilton Silva Costa, 427, Mogilar, Mogi das Cruzes - (Próximo à estação central de Mogi)

  • QUANDO?

Dia 14 de fevereiro de 2009, às 16H

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009


19/01/2009 - 12h06
Software israelense manobra opiniões na internet
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DIÓGENES MUNIZ


(editor de Informática da Folha Online)

Nem só de caças F-16 e mísseis teleguiados são feitos os ataques israelenses em Gaza. Uma arma em específico se destacou pela eficiência apresentada desde a escalada do conflito --e continuará sendo usada, mesmo após o cessar-fogo. Ela age nos bastidores da internet, modificando resultados de enquetes on-line, entupindo caixas de e-mails de autoridades e ajudando a protestar contra notícias desfavoráveis à comunidade israelense.
O nome da ferramenta é Megaphone, um software desenvolvido pela companhia Collactive e distribuído pela organização Giyus ("mobilização" em hebraico, mas também sigla para "Give Israel Your United Support" ou "Dê a Israel seu apoio integrado", em tradução livre). O programa serve para mobilizar internautas pelo mundo dispostos a manobrar ("balancear", segundo os usuários) opiniões na rede.
Desenvolvido em 2006, durante a Guerra do Líbano, seu uso atingiu 36.700 "soldados virtuais" com o conflito em Gaza. A meta: 100 mil participantes.
Lobby 2.0
O internauta disposto a fazer parte do arrastão cibernético precisa baixar um programa no site Giyus.org, que se apresenta como uma "coalizão de organizações pró-Israel trabalhando juntas para ajudar a comunidade judaica a fazer suas opiniões serem ouvidas de maneira efetiva".
Instalada a plataforma, aparecem no computador alertas em tempo real sobre notícias, enquetes, artigos, vídeos ou blogs que estejam com visões "a favor ou contra" a comunidade. Lembram os avisos de novas mensagens do comunicador instantâneo MSN. O internauta é convidado, a partir daí, a "agir por Israel" --enchendo os alvos de críticas, elogios ou votos.
Com poucos cliques (e sem dominar o idioma da página em questão), é possível influenciar uma pesquisa no site do Yahoo! ou mandar uma notícia sobre mísseis palestinos para a ONU, entre outros. O programa oferece no próprio navegador um formulário completo de "ação" já preenchido, com endereços dos destinatários e conteúdo padrão a ser enviado: o internauta sequer precisa abrir sua conta de e-mail ou clicar em "enviar".
Redes sociais e sites colaborativos, como Facebook e YouTube, também estão na mira do software. Esse tipo de estratégia, que recebeu o apoio do Ministério das Relações Exteriores de Israel, já forçou o site da BBC a tirar uma enquete do ar.
Desde o início da invasão a Gaza, dezenas de comunidades e sites foram "pichados", invadidos ou derrubados, tanto por piratas virtuais palestinos quanto israelenses. O que se destaca neste caso, no entanto, é o modo de atuação do programa, que institucionaliza a manipulação de informação de forma coordenada e colaborativa.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Quem começou o terrorismo no conflito árabe-israelense?

Palestina a terra prometida
Veja slide em Powerpoint aqui

Para documentação, consulte-se The Arab Women's Information Committee e The Institute for Palestine Studies, Who Are the Terrorists? Aspects of Zionist and Israeli Terrorism, (Beirut: Institute for Palestine Studies, 1972)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Hamas, Israel, Gaza e resistência violenta


As razões manifestadas por Israel para a sua declaração de guerra total contra a população de Gaza são a mais recente variação de um tema que pôs em circulação a seguir à vitória eleitoral de 2006 do Hamas em Gaza. Em Fevereiro daquele ano Israel emitiu um conjunto oficial de exigências. Israel exigia que o Hamas reconhecesse o direito permanente de Israel a existir, renegasse a violência e aceitasse a validade dos acordos anteriores israelenses-palestinos. Israel afirma que a incapacidade do Hamas em cumprir estas exigências explica e justifica seus ataques aéreos sobre o povo de Gaza.

Na realidade, a agressão de Israel tem pouco a ver com a resposta do Hamas a estas exigências, as quais são, como veremos, insinceras.

Argumenta Israel que a necessidade de derrotar o Hamas é a questão nuclear que motiva os seus actuais ataques aéreos. Esta afirmação é de avaliação especialmente difícil para os americanos. Os media dos EUA habitualmente reflectem a demonização oficial israelense dos objectivos e acções do Hamas.

O entendimento da história do Hamas e da sua actual posição sobre questões chave é essencial para apreciar o que está realmente em causa na escalada da crise em Israel e na Palestina.

O objectivo do que se segue é simplesmente situar o Hamas no contexto da ocupação e da resposta palestina à mesma. Vamos começar com as origens do Hamas e então examinar cada uma das exigências de Israel em 2006.

A emergência do Hamas em Israel

O Hamas descende directamente de um anterior movimento islâmico preocupado basicamente em assegurar educação, cuidados de saúde, ajuda alimentar e outros serviços sociais a palestinos que sofriam sob a ocupação israelense.

Este grupo foi financiado pelo monarca saudita e... o governo de Israel ! Este último proporcionou ao movimento terra, edifícios e não pouco encorajamento.

A lógica de Israel era simples: a Organização de Libertação da Palestina (OLP), naquele tempo a principal representante dos interesses palestinos, era abertamente política e secular, com uns poucos socialistas nos seus escalões mais altos. A organização tinha como objectivo organizar os palestinos numa força capaz de por fim à ocupação. A liderança israelense procurava mudar a lealdade palestina da OLP política e secular para a religiosa e não-política antecessora do Hamas.

Os israelenses imaginavam que ao dispor de extensos serviços sociais e religiosos os palestinos seriam despolitizados graças ao alívio do seu sofrimento e portanto menos propensos à resistência nacionalista e anti-ocupação.

Portanto, as autoridades israelenses de ocupação forçaram o exílio de activistas cristãos palestinos que encorajavam à resistência não violenta, mas permitiram que grupos islâmicos radicais fizessem reuniões, publicassem jornais e tivessem a sua própria estação de rádio não censurada.

Não surpreendentemente, os grupos religiosos de serviço social foram-se tornando cada vez mais politizados. Eles testemunhavam a escalada da brutalidade da ocupação e a ineficácia da actividade caritativa por si só em questionar o apartheid forçado. Continuaram as suas actividades de serviço social, mas aglutinaram-se em 1987 para formar o Hamas, um acrónimo para Harakat al-Muqawama al-Islamiya, O Movimento de Resistência Islâmica.

A nova auto-definição política do Hamas, como representando Resistência à ocupação, tanto selou o seu destino aos olhos dos israelenses como promoveu a sua atractividade para os palestinos.

Em 1992 Israel expulsou centenas de membros do Hamas. Muito poucos foram acusados de crimes violentos. O Conselho de Segurança da ONU declarou unanimemente que as expulsões constituíam uma violação do direito internacional e apelou ao retorno dos exilados. Mas a nova administração Clinton bloqueou a aplicação da resolução.

O resultado foi que os exilados tornaram-se heróis e a reputação do Hamas e a sua força política entre os palestinos cresceu significativamente. Mas em 1993 o Hamas tinha o apoio de apenas 15 por cento dos palestinos. Qual a razão para o crescimento do apoio palestino ao Hamas desde então?

Israel e a Autoridade Palestina matam as esperanças dos palestinos

Nos anos seguintes ao Acordo de Oslo, de 1993, entre a OLP e Israel ficou claro que nada estava a ser feito para avançar a formação de um estado palestino viável. O Hamas chamava a atenção para o facto de que o Acordo era, por intenção de Israel, aberto, em etapas, calculadamente vago e sem compromissos, sem garantias quanto a questões chave como assentamentos, terra e água, o status de Jerusalém e o retorno de refugiados.

Além disso, mesmo quando as negociações de Oslo prosseguiam, e continuando durante anos após as mesmas, Israel continuou a construir assentamentos a um ritmo acelerado. Os blocos de assentamento foram posicionados de modo a criar "factos no terreno" os quais tornavam impossível especificar uma área que pudesse constituir um estado palestino viável.

O professor de história da Universidade de Haifa Ilan Pappe, nascido em Israel, descreveu perfeitamente os Acordos de Oslo como um ardil para permitir a Israel continuar a construir assentamentos de modo a encurralar os palestinos em bantustões estilo sul-africano.

Tudo isto culminou em Camp David, em 2000, na "oferta generosa" de Barak, uma impressionante confirmação da acusação de Pappe: um "estado" palestino sem continuidade territorial, dividido por blocos de assentamento, cortado por estradas e barreiras em estradas, com o controle israelense de toda a fronteira. A área permitida aos palestinos incluiria 69 blocos de assentamento, alojando 85% de todos os colonos israelenses. Os palestinos teriam de viajar 50 milhas [80 km] para ir de uma cidade para outra, com muitos atrasos inúteis em pontos de controle e barreiras de estrada, a fim de atravessar uma distância real de 5 milhas [8 km].

E durante todo este processo Israel continuou a expandir a sua colonização da Cisjordânia, duplicando o número de colonos nos dez anos que se seguiram a assinatura dos Acordos.

Isto foi uma bofetada na cara do palestinos, que haviam concordado, através da OLP, em aceitar uns meros 22 por cento da terra que era sua antes de 1948. Conceder 78 por cento da terra foi um compromisso histórico palestino.

Desde as reuniões de Oslo e Camp David a condição dos palestinos continuou a deteriorar-se. Ficou cada vez mais claro que a OLP e sua sucessora, a Autoridade Palestina (AP), não fora simplesmente inepta na negociação, mas que a AP e o seu líder Yasir Arafat estavam afundados na corrupção, com grande parte dos fundos da Autoridade gasto com compadres enquanto Arafat passava grande parte do seu tempo a viver no luxo longe da Palestina. A última gota foi a decisão da AP de designar a sua polícia a que ajudasse as autoridades de ocupação na supressão da resistência palestina.

Em contraste, o Hamas era percebido pelos palestinos como honesto e genuinamente sensível aos seus interesses. O Hamas persistentemente criticou a inépcia e a corrupção da AP. Mas a sua abordagem não era meramente negativa: como veremos abaixo, o Hamas propunha políticas e pontos de negociação que eram construtivos, realistas e que não ameaçavam o direito de Israel a existir.

Estes desenvolvimentos foram o princípio do crescente apoio palestino ao Hamas.

Os media "de referência" tendem a retratar a escolha eleitoral de 2006 dos palestinos como uma mostra de apoio à violência política como meio de resolução do conflito Israel-Palestina. Na verdade, os media habitualmente equiparam o Hamas à violência estúpida ao serviço da destruição de Israel. Nenhuma destas alegações contra o Hamas e o povo palestino é verdadeira. Vamos examinar a questão geral da violência política do povo sem Estado, antes de passar a questões específicas da posição do Hamas em relação à actual crise em Gaza.

Questões preliminares: Condição de falta de Estado e violência legítima

O recurso palestino à violência não tem conexão com a questão do direito de Israel a existir. Que a resistência palestina à ocupação por vezes assuma formas violentas não indica um desejo de aniquilar Israel. No caso dos palestinos, o recurso à violência não pode ser entendido sem considerar o passivo peculiar da inexistência de Estado.

Os media "de referência" não fazem qualquer esforço para comunicar ao público geral os efeitos singularmente debilitantes da inexistência de Estado. A falta de Estado não é simplesmente estar privado de "uma terra de si próprio". A definição de Max Weber do Estado é que é mais relevante aqui: o Estado é a instituição que monopoliza o uso legítimo da violência.

O Estado pode legalmente empregar violência como um meio de corrigir injustiças feitas aos seus cidadãos. Se alguém mata o seu filho, você não pode aprisioná-lo no seu sótão como punição. Ao invés disso, você denuncia a injustiça sentida às autoridades do Estado, as quais então julgam a sua queixa através do sistema de justiça. Um momento de reflexão revela que o povo sem Estado é um povo ao qual faltam quaisquer meios legítimos de se defender da injustiça.

Um povo sem Estado está estruturalmente indefeso face à injustiça. Pois se a modernidade limita a resposta violenta à injustiça à intervenção do Estado, então a ausência de Estado obriga à passividade dos que dele não dispõem. Estes são transformados em pacifistas involuntários. O facto de não terem Estado retira aos palestinos a única espécie de resistência apropriada aos instrumentos de opressão que enfrentam, nomeadamente resistência forte e agressiva. Pois a entidade que oprime os palestinos é um Estado racista e colonialista que tornou claro, como veremos abaixo, que não negociará qualquer das reivindicações da sua população sujeita e que tem uma forte inclinação à utilização permanente e supérflua dos seus próprios instrumentos de destruição.

A amarga experiência ensinou aos palestinos que a resistência/desobediência não violenta ou civil é de facto ineficaz. Activistas da paz não violenta como Rachel Corrie (americana), Tom Hurndall (britânico) e Gil Nima'ati (israelense) encontraram a morte diante das forças de defesa israelenses (IDF), que sabiam exactamente o que estavam a fazer.

Apesar de tudo isto, a condição de ausência de Estado dos palestinos determina que eles não podem "tomar o assunto nas suas próprias mãos". Pois palestinos tomarem as medidas que normalmente seriam tomadas por um Estado cujos cidadãos são tratados por um poder inimigo tal como os palestinos são tratados por Israel é denominado "terrorismo". Faltando um Estado para proteger os seus interesses, os palestinos encontram-se na seguinte pouco invejável posição: seja o que for que lhes seja feito, as únicas respostas legítimas são a passividade ou a confiança na bondade de estranhos. E a resposta da "comunidade internacional" ao apuro dos palestinos torna claro que esta última é de facto estranha para eles, e de modo algum estranha de outra espécie. A resposta ilegítima, então, torna-se a única alternativa a abraçar a derrota.

Note-se a peculiaridade da utilização de "ilegítimo" neste contexto. Chamar a violência privada ou não estatal de "ilegítima" é implicar que a acção do Estado está disponível. Mas no caso notável de um povo oprimido sem um Estado, a distinção normal entre acção legítima e ilegítima não tem aplicação.

Enquanto a violência dos movimentos de resistência sem Estado é por definição ilegítima, isto é, não efectuada legalmente por um Estado, é uma questão aberta se tal violência é justificada. É claro para a maioria das populações do mundo que a resistência violenta ao apartheid israelense é tão justificada como foi a por vezes violenta resistência dos negros sul-africanos ao regime do apartheid dos seus opressores.

A questão para nós em ligação com a crise de Gaza é se o Hamas está preparado para renegar a violência na falta da eliminação do Estado de Israel. Por outras palavras: Estará o Hamas aberto a uma resolução não violenta do conflito Israel-Palestina? Veremos a seguir que o Hamas na verdade está aberto a uma tal solução.

Estará o Hamas comprometido com a destruição de Israel?

As primitivas declarações fundadoras do Hamas na verdade negavam a Israel o direito de existir. Como veremos, o Hamas abandonou esta posição absolutista. O apoio crescente da organização levou-o a assumir um senso renovado de responsabilidade para com aqueles que o levaram ao poder. A comunidade palestina era principalmente secular e nunca abraçou o absolutismo do fundamentalismo islâmico. Apesar do contínuo terror israelense continuou a endossar a solução dos dois Estados.

O Hamas tomou uma posição firme contra um apelo da al-Quaeda a realizar uma jihad violenta destinada a arrebatar toda a Palestina de Israel. O Hamas, em Março de 2006, respondeu que:

"A nossa batalha é contra a ocupação israelense e nossa única preocupação é restaurar nossos direitos e servir nosso povo".

Nas eleições que levaram o Hamas ao poder de Gaza, em 2006, os "pragmáticos" do Hamas prevaleceram sobre a minoria dos intransigentes, muitos dos quais transformaram-se em moderados. O Hamas foi sempre receptivo ao seu eleitorado. Ele sabe que a sua vitória eleitoral foi devida não ao extremismo religioso mas sim à plataforma do Hamas de governo honesto, eficaz e limpo e de serviços sociais melhorados.

Num inquérito pós-eleitoral apenas 1 por cento dos palestinos disse que o Hamas deveria impor a Lei Islâmica sobre a Palestina, ao passo que 73 por cento apoiava uma solução dois Estados como parte de um acordo de paz com Israel. O Hamas respondeu com uma reafirmação do seu próprio apoio a uma solução dois Estados.

A Henry Siegman, ex director executivo do American Jewish Congress ex director do Projecto Médio Oriente do Council of Foreign Relations, foi assegurado por um membro influente do Comité Político do Hamas que este não exclui o reconhecimento oficial de Israel mas que o Hamas não renunciará à sua crença de que a Palestina é uma dádiva religiosa indicada por Deus para os muçulmanos. Contudo, o responsável acrescentava que esta crença teológica não excluía acomodações a realidades temporais e ao direito internacional. Isto inclui, enfatizou, o reconhecimento da soberania de Israel.

Esta posição tem um paralelo preciso do lado de Israel. Judeus religiosos acreditam que Deus prometeu toda a Palestina para o povo judeu. Mas eles estão preparados para adiar a implementação desta reivindicação religiosa para o tempo que se seguirá à aparição do messias.

Por outras palavras, no mundo real as convicções religiosas tanto do Hamas como dos judeus religiosos estão em consonância com uma resolução prática e secular do seu conflito.

A liderança israelense está plenamente consciente de tudo isto. Sua objecção real ao Hamas é que a organização corporifica mais genuinamente do que qualquer anterior liderança palestina a resistência à ocupação e negociações inteligentes rumo a um Estado palestino independente.

Por que o Hamas não "reconheceu" Israel agora?

A questão do reconhecimento é para desviar atenções. Trata-se de Geopolítica elementar: o reconhecimento de Israel pelo Hamas significaria a sua aceitação do não-reconhecimento por Israel de um Estado palestino. O Hamas tornou claro que se Israel oferecesse uma genuína solução dois estados com um retorno às suas fronteiras de 1967, e isto fosse ratificado pela maioria dos palestinos, o Hamas consideraria isto aceitável. Isto levaria ao reconhecimento oficial de Israel.

O que importa é o reconhecimento oficial, o qual só pode ser feito por um Estado soberano. O Hamas não pode "reconhecer" Israel tal como o Likkud não pode reconhecer a Espanha. E, no caso de Israel, o que é que deve ser reconhecido? Israel recusa-se a declarar as suas fronteiras oficiais.

Estará o Hamas comprometido com a violência política?

Mesmo a imprensa israelense relatou que o Hamas oferecer a Israel, logo após a sua vitória eleitoral de 2006, um cessar fogo extenso e uma aceitação de facto dos dois Estados se apenas Israel retornasse às suas fronteiras de 1967.

Ao invés de agarrar esta oportunidade para testar a boa fé do Hamas, Israel preferiu punir toda a população de Gaza com um bloqueio a fim de pressionar o povo a renunciar aos resultados da eleição.

O Hamas de facto manteve reiteradamente vários cessar fogo, os quais Israel habitualmente violou. A conexão entre violações israelenses dos cessar fogo e bombismos suicidas é instrutiva. (Um tratamento completo desta questão foi feito por Steve Niva, académico do Médio Oriente, em dois importantes artigos em www.counterpunch.org/niva08272003.html e www.counterpunch.org/niva03242004.html

Há um indicador virtualmente infalível de um acto de bombismo suicida: um assassinato israelense de um comandante superior ou de um líder de um grupo militante. Este indicador é mais confiável quando os assassínios se verificam enquanto estes grupos estão a negociar uma trégua aos ataques aos israelenses, ou quando os assassínios rompem cessar-fogos duradouros de grupos palestinos.

Este padrão tornou-se mais frequente e previsível depois de Ariel Sharon se tornar primeiro-ministro, em Fevereiro de 2001. Ele intensificou a campanha de assassínios contra militantes palestinos destacados.

Sharon escolheu deliberadamente períodos durante os quais grupos anti-ocupação estavam ou a negociar ou realmente a manter cessar-fogos nos ataques a civis israelenses.

Aqui está apenas uma amostra dentre muitos exemplos:

– Dois meses depois do cessar-fogo do Hamas, Israel assassinou dois destacados comandantes do Hamas em 31 de Julho de 2001. Menos de duas semanas mais tarde houve um bombismo suicida numa pizzaria em Jerusalém.

– Enquanto o Hamas estava a cumprir um acordo de não atacar objectivos dentro de Israel a seguir aos ataques do 11/Setembro, Israel assassinou o alto dirigente do Hamas Mahmud Abu Hanoud, em 23 de Novembro de 2001. Uma semana depois houve bombismos suicidas em Jerusalém e Haifa.

– Em meio a um cessar-fogo declarado por todo os grupos militantes no fim de Dezembro, Israel assassinou o destacado dirigente do Hamas Raed Karmi, em 14 de Janeiro de 2002. Menos de duas semanas mais tarde houve um bombismo suicida como retaliação.

– Em Julho de 2002 houve relatos generalizados de que seria anunciado um cessar-fogo unilateral por parte do Hamas em 23 de Julho. Naquele dia, pouco antes do previsto anúncio de cessar-fogo, Israel assassinou o destacado dirigente militar do Hamas Salah Shehada através de um ataque aéreo a um apinhado bloco de apartamentos na Cidade de Gaza. Entre os feridos estavam 15 civis, 11 deles crianças. Menos de duas semanas depois o Hamas retaliou com um bombismo suicida.

– Em 22/Março/2004 Sharon conseguiu assassinar o fundador e líder espiritual do Hamas, Sheikh Yassin. Seguiu-se o que era previsível.

Jornalistas israelenses denunciam a cumplicidade de Israel nos bombismos suicidas

Alguns dos mais prestigiados comentadores políticos de Israel sugeriram que Israel é responsável por pelo menos alguma violência palestina. Esta posição não pode sequer ser formulada na linguagem padrão dos media dos EUA, os quais sistematicamente definem a violência israelense como "retaliação" e a violência palestina como "ataques".

Num artigo (25/Novembro/2001) no jornal de Israel com maior tiragem, Yediot Aharanot, Alex Fishman, o conservador comentador militar do jornal, observou que

"Quem quer que tenha decidido a liquidação de Abu Hanoud sabia antecipadamente que [um ataque terrorista dentro de Israel] seria o preço. O assunto foi amplamente discutido tanto ao nível militar como político de Israel, antes de ser decidido executar a liquidação".

Escrevendo no Haaretz (21/Janeiro/2002), o jornalista Danny Rubinstein destacou que

"Os assassínios de Israel hoje geram muito mais dano do que os benefícios que eles são supostos trazer ... pode-se dizer explicitamente neste momento que o assassínio de Karmi já custou directamente as vidas dos dezenas de israelenses que morreram na semana passada vítimas de ataques terroristas".

A utilização da palavra "directamente" por Rubinstein é uma afirmação de que Israel partilha alguma responsabilidade pelos bombismos suicidas.

Um editorial do Haaretz (02/Agosto/2002) a seguir ao assassínio de Shehada declarava que

"Em suma, qualquer criança de quatro anos que examinasse este padrão de acontecimentos concluiria que este governo, conscientemente ou não, simplesmente não está interessado na cessação dos ataques terroristas, pois eles constituem a sua raison d'etre".

O Hamas explicou em pormenor a arrepiante implicação de tudo isto imediatamente a seguir à morte de Yassin:

"Hoje Ariel Sharon ordenou a morte de centenas de sionistas em cada rua, cidade e centímetro das terras ocupadas".

Durante anos, insinceramente, Israel insistiu em que os ataques suicidas eram o principal obstáculo para negociações. Desde a trégua mais recente que começou no último Verão, o primeiro-ministro do Hamas, Ismael Haniyeh, removeu o obstáculo efectuando a completa cessação dos bombismos suicidas. Como era de esperar, isto não fez diferença para Israel, o qual respondeu recusando aos habitantes de Gaza energia eléctrica, remédios, equipamento médico e alimentos.

A questão, então, não é simplesmente se Israel tem um interesse directo em perpetuar ataques terroristas palestinos, mas se Israel tem qualquer intenção que seja de fazer a mais ligeira concessão aos palestinos na direcção do estabelecimento da solução dois Estados.

Intenções de Israel: Um acerto justo ou limpeza étnica?

Ephraim Halevy, o ex chefe da agência de inteligência Mossad, informou em 23 de Dezembro que o Hamas

"[está] pronto e desejoso de ver o estabelecimento de um estado palestino nas fronteiras temporárias de 1967... [O Hamas está preparado] a aceitar um caminho que poderia levá-lo para longe dos seus objectivos originais... Israel, por suas próprias razões, não quis transformar o cessar-fogo no início de um processo diplomático com o Hamas".

Halevy pode não se aperceber das "suas próprias razões" de Israel para sabotar negociações destinadas ao estabelecimento de um Estado palestino, mas não por falta de declarações francas da liderança israelense. Em 14 de Novembro de 1998, Ariel Sharon declarou que

"É dever dos líderes israelenses explicar à opinião pública, claramente e corajosamente, um certo número de factos que são esquecidos com o tempo. O primeiro destes é que não há sionismo, colonização ou Estado judeu sem a expulsão (eviction) dos árabes e a expropriação das suas terras".

Em 2005 Dov Weisglass, conselheiro sénior de Sharon, disse acerca da retirada de Israel de Gaza:

"A retirada é realmente formaldeído [NR] . Ela fornece a quantidade de formaldeído que é necessária, de modo que não haverá um processo político com os palestinos... todo este pacote chamado Estado palestino foi removido da nossa agenda indefinidamente".

A fim de que não se pensasse que esta posição era peculiar apenas do raivoso Sharon, eis o que Ehud Olmert disse num discurso numa Sessão Conjunta do Congresso dos EUA em 24 de Maio de 2006:

"Acreditava e ainda hoje acredito no direito eterno e histórico do nosso povo a toda esta terra".

Motivações reais de Israel

O que Israel teme não é o terrorismo e sim a independência palestina. Israel não permitirá que emerja um governo palestino soberano sobre a terra que pretende manter – e provavelmente expandir – como a sua própria. A Autoridade Palestina estava e está no bolso de Israel. O Hamas nunca será peão de Israel. Portanto, ele deve ser erradicado. Esta é a principal razão para a actual guerra relâmpago contra Gaza. Mas não é a única.

Aproximam-se as eleições israelenses, em Fevereiro. Antes do sítio o Likkud de Benjamin Netanyahu estava à frente nos inquéritos. A guerra relâmpago é uma demonstração de dureza, um gesto de que os políticos gostam de aproveitar-se em tempos de eleição. Tzipi Livni e Ehud Barak colocaram-se em evidência regozijando-se com o bombardeamento desde que os ataques começaram, esperando promover as fortunas eleitorais do Kadima e do Partido Trabalhista. E na verdade as sondagens do Partido Trabalhista estão 50 por cento mais altas nos últimos seis dias.

Finalmente, Israel nunca venceu uma guerra nos últimos 27 anos. Para agravar ainda mais as coisas, as Forças de Defesa de Israel sofreram uma humilhante derrota no Líbano, às mãos do Hezbollah, em 2006. Como disse segunda-feira Mark Heller, chefe de investigação associado no Instituto para Estudos de Segurança Nacional, da Universidade de Tel Aviv:

"Ninguém hoje tem medo de nós da mesma forma que antes... uma boa razão para esta operação [é] restaurar a credibilidade na capacidade de Israel para dissuadir inimigos".

A ironia, naturalmente, é que o actual sociocídio avolumará as fileiras do Hamas e dos seus simpatizantes, tal como o fiasco libanês de Israel reforçou o prestígio do Hezbollah. Mas só o activismo global em solidariedade com o povo palestino derrotará os desígnios colonialistas de Israel e a sua arrogância letal.


04/Janeiro/2009

[NR] Formaldeído: gás venenoso.

[*] Professor emérito de Política Económica em The Evergreen State College, Olympia, Wa, EUA. Seus artigos têm sido publicados em The Nation, Monthly Review, Commonweal, Common Dreams, Global Research e em publicações profissionais de ciências económicas, filosofia, direito e psicologia.

sábado, 3 de janeiro de 2009

SOBRE O BLOG PALESTINA LIVRE


Este BLOG não tem dono, não tem regras.
Deve possuir apenas alimentadores, pessoas que colaborem com textos, fotos, poesias, músicas,vídeos, downloads e dicas.
Se trata da extensão de um trabalho de conclusão de curso de uma universidade sobre o conflito entre Palestina e Israel. Aos poucos serão disponibilizados os materias deste trabalho - um programa de rádio de cerca de 45 minutos, entrevistas, textos, dados, fontes, bibliografia e relatório.

O BLOG tem um pretexto: a discussão acerca da Palestina, uma nação massacrada por um Estado opressor, privada da própria existência, marcada pela miséria, pelo descaso.

O BLOG provavelmente irá receber ao menos uma postagem por semana, até que todos comecem a escrever e se assim a preguiça permitir.